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ASFALTO VERMELHO - CESAR RIBEIRO*



Outro – A nicotina é a única coisa em que ainda acredito. A nicotina e as trepadas. E as bebidas. Eu já fodi demais. Eu já bebi demais. É preciso um corpo e um gole pra aquecer as noites. O resto é besteira.

Um – Eu fui casado muito tempo. Só trepei com ela a minha vida toda. Quando ela morreu, me fechei em casa e abri o gás. Fiquei esperando uma caralhada de tempo até que a morte viesse. Chegou a manhã e acordei. Nem zonzo estava. Aí olhei pra geladeira e tava a conta vencida. Tinham cortado o gás. A gente é tão inútil que nem morrer consegue.

Outro – E por que você não pulou? Décimo terceiro andar dá uma bela salada no asfalto.

Um – Tenho medo de altura.

*trecho de uma peça de teatro



Escrito por Cesar Ribeiro às 15h51
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SENHORA DE VIDRO


Senhora dos Afogados

Assisti recentemente a duas peças: Rosa de Vidro e Senhora dos Afogados. Rosa de Vidro é daquelas peças intimistas cheias de imagens poderosas retratando a loucura. Parte de interpretações muito bem desenhadas pelos atores e de uma direção que procura a poesia na sutileza, nas pequenas respirações. Já Senhora dos Afogados tem a forte mão da direção estilizada de Antunes Filho e interpretações que em boa parte deixam a desejar.

Impossível não fazer comparações entre trabalhos tão distintos. Rosa de Vidro tem a força de lidar com a visão tradicional de teatro para quebrá-la em pequenos pontos. Usa os elementos consagrados da linguagem teatral para estruturar uma montagem que, apesar de contundente e reflexiva, foi feita para agradar ao público. Provoca questões, debate idéias, reflete na platéia um espelho de nossos atos cotidianos... tudo isso com uma encenação muito bem executada pelos quatro atores e com imagens belíssimas, como o momento em que a personagem central fabrica a ilusão de um romance. Já Senhora dos Afogados dá continuidade à pesquisa estética de Antunes Filho através do trabalho do coro, da pesquisa do gesto e da voz ideais e de um conceito que consagra a morte da instituição. É uma peça em que não há saída, seja para a família Drummond, seja para os personagens ligados ao prazer. Com algumas exceções, os atores não conseguem desempenhar bem a visão do Antunes para a peça. Há uma opção firme pela frieza dos personagens, uma leitura apolínea em uma sociedade dionisíaca.

Rosa de Vidro apela para o emocional e atinge seu objetivo: ao final da peça a platéia começa um funga-funga gerado pelo espelho do sentimento do público no fracasso da personagem central em alcançar uma vida menos ordinária. Já Senhora dos Afogados não atinge o objetivo primordial, que é nos colocar diante de uma instituição degradada (a família) para representar a morte de um país, de uma sociedade. E a opção pela frieza torna a peça cerebral, o que, em uma realidade influenciada e formada pela mentalidade e estética hollywoodiana, acaba afastando boa parte do público.

Tudo isso me fez pensar algumas questões relacionadas à montagem de Macbeth. Rosa de Vidro é sem dúvida uma peça mais bem executada do que Senhora dos Afogados. No entanto, Senhora dos Afogados é obra de artista, enquanto Rosa de Vidro é uma peça de teatro. Mas que diabos quero dizer com isso? Quero dizer que Rosa de Vidro foi elaborada, muito inteligentemente, dentro de parâmetros já consagrados do teatro, seja na parte de encenação ou de interpretação. Há uma luz muito bonita mas que já vimos em dezenas de outros espetáculos, há uma cenografia brilhantemente realizada que já encontramos em outras encenações, há interpretações muito bem elaboradas mas que visam exclusivamente passar a mensagem, o que faz muito bem. Já Senhora dos Afogados coloca conceito sobre conceito, busca uma estética diferenciada de composição de personagem, aproxima-se do expressionismo e ao mesmo tempo dos quadrinhos, procura uma musicalidade na voz que nada tem a ver com a voz que encontramos nas ruas das metrópoles. É uma peça que, se não tateia no escuro, busca soluções para uma pesquisa antiga de Antunes de renovação do teatro.

Há um contraponto que talvez sugira essas diferentes linhas: Rosa de Vidro é um texto novo, e como normalmente acontece com textos não encenados ele é inicialmente montado para contar uma história. Senhora dos Afogados é uma peça muito encenada de um dos dramaturgos mais encenados no Brasil, e como tal quase exige uma releitura, uma visão pessoal da obra para colocar argumentos novos sobre argumentos já conhecidos.

Do ponto de vista da preferência do grande público, Rosa de Vidro é das melhores peças em cartaz no teatro atualmente e “revela” atores que em breve estarão consagrados no teatro, assim com um diretor que tem tudo para se tornar dos mais representativos no teatro nacional. Já Senhora dos Afogados é um exercício que desagradará a muitos. Apesar disso, creio que o teatro precise muito mais de trabalhos que, ainda que não muito bem executados em suas amarras, tateie sentidos do que obras bem acabadas. Não creio que seja necessário apropriar-se da idéia de originalidade para se tornar artista, mesmo porque tudo é recriado, copiado, carimbado de outras eras, de outras encenações. É evidente a presença de Kantor em Antunes. É evidente a presença de Suzuki, de Pina Bausch... Porém, apesar de o artista ter a sua assinatura, cada obra, lendo-a profundamente, pede soluções novas, sentidos novos, estéticas diferenciadas... O risco de optar por um caminho em que há poucas referências a seguir é evidente, mas ainda assim é mais necessário do que recorrer aos velhos chavões para construir uma boa peça de teatro, mesmo porque o teatro comercial é cheio de peças muito bem-feitas que não dizem nada. No caso de Macbeth, peça tão mundialmente encenada, não teria o menor sentido optar por dirigi-la se não houvesse de minha parte uma visão diferenciada da obra, uma visão que ainda não vi nas montagens a que assisti. Caso eu já tivesse visto em cena um Macbeth que colocasse à minha frente as mesmas questões que encontro na peça, por que eu deveria encená-la? Em uma realidade em que a arte é cada vez mais encarada como produto cultural para difusão nas feiras-nossas-de-todo-dia, essa é uma pergunta que todo mundo mundo que lida com a arte deveria fazer.



Escrito por Cesar Ribeiro às 17h02
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MACBETH 3 - uma estética


La Fura Dels Baus

Como não poderia deixar de ser, sou limitado como indivíduo pela minha visão de mundo e tento expandi-la através do contato com pessoas e obras de maneira geral. No que se refere ao teatro, também tenho minhas limitações — o que na arte ganha o charmoso e enganoso nome de estilo. Assim, enfrentando a sutil batalha de manter as próprias convicções, algo cada vez mais difícil com o passar dos anos, elas são emitidas na maneira com que interpreto uma peça, na leitura dos personagens e da discussão estabelecida no texto, no desenho cênico das ações e nas próprias referências estéticas, assim como e principalmente no vínculo da obra com a realidade em que vivo. O teatro não me interessa. A arte não me interessa. A arte é apenas um campo que elegi para dialogar com as pessoas. Ou seja, trata-se de comunicação, da possibilidade de ver em uma encenação debates que reflitam o mundo atual por meio de uma linguagem poetisada relacionada ao sonho/pesadelo. Macbeth não poderia deixar de ter essa visão, que deve ser alimentada, como de costume, pelos elementos envolvidos na minha formação: a influência do rock (principalmente o protopunk) e da música eletrônica (trance e suas ramificações), os desenhos animados politicamente incorretos, os quadrinhos futuristas, a preferência pelo cinema expressionista alemão e suas releituras levadas ao teatro, a cultura da danceteria e da rave e o fascínio pelo confronto luz e sombras. Esses elementos perpassam tudo o que faço em teatro — quem já viu algo meu sabe que sempre há fumaça, luz estroboscópica, música alta e figuras estranhas em cena. Para cada criação são incorporados elementos novos: no caso do Diálogo Inútil do Abismo com a Queda há o trabalho sobre o silêncio, sobre a pausa cênica, assim como a interferência do blues. Quase não há música. Em Macbeth esses conceitos gerais estarão presentes na montagem, mas no momento em que estou a visão está centrada na fusão desses princípios com o universo fashion. Como unir o ambiente da moda, o culto à celebridade e a espetacularização da sociedade em uma montagem de um texto de Shakespeare em que também esteja presente a influência de Tim Burton, South Park, David Lynch, Seinfeld, Monty Python? Qual o vínculo disso com Nietzsche, Bachelard, Beckett, Foucault? Em Drácula o Coppola criou uma cena de abertura que homenageia o cinema de Kurosawa e cuja interpretação é do genial grupo catalão La Fura Dels Baus. Em O Quinto Elemento cria-se um cenário operístico que se converte em show de música eletrônica. Em Goya, Carlos Saura cria todo um universo onírico e lisérgico para narrar os últimos dias do artista. Seinfeld é um livro de quinhentas páginas de filosofia pura em episódios de 30 minutos. Como estabelecer esse tipo de fusão em Macbeth? Ainda não tenho as respostas, mas Shakespeare com tochinhas e imensos portões de madeira ninguém merece.



Escrito por Cesar Ribeiro às 13h01
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MACBETH 2 - uma reflexão inicial


Viner - Equilibrium

Qual o vínculo que temos com a idéia de poder? Até que ponto ele pode fabricar uma sensação de felicidade e qual é o nosso ideal moderno de felicidade, em uma sociedade cada vez mais hedonista e individualista? Os pilares de manutenção da antiga sociedade estão em ruínas — religião, família, trabalho —, sendo substituídos pela moralidade institucional e pela relação de troca alimentada pelo dinheiro num sentido não apenas materialista, mas também afetivo. Por um lado, esse gerenciamento do interesse burguês mediado pelo governo e induzido pelas empresas transmite a mensagem do politicamento correto mas com o contraponto do respeito à diversidade. Como conciliar a idéia de ser socialmente responsável com o ideal de cada um na sua se a responsabilidade de viver em um mundo coletivo passa e deve passar pelo autocontrole e pelo controle das ações alheias? Todo ser humano, de alguma maneira, quer-se deus, quer ser imortalizado no outro como um indivíduo importante. Isso passa pelas relações afetivas, pelas relações no ambiente de trabalho... todos querem se sentir especiais no mundo em que vivem. Para atingir isso há uma incessante procura pelo trabalho ideal, o relacionamento afetivo ideal, o lazer ideal, a casa ideal... Essa busca está associada a uma idéia de evolução do indivíduo ao longo da vida, e essa evolução, em uma realidade de ordem e progresso, está intrinsecamente ligada ao “crescimento” pessoal em diversas frentes: é preciso ganhar mais dinheiro para alcançar a possibilidade de realizar os desejos materiais e de lazer, é preciso conquistar e manter cotidianamente a pessoa amada ao lado, é preciso acumular conhecimentos para fugir do senso comum e entender o mundo, é preciso destacar-se profissionalmente para alcançar boa parte desses objetivos. Mas o que realmente se está buscando para que esse processo tenha início e o que se almeja ao seu término? A questão aqui não é simplesmente a idéia de evoluir, mas entender individualmente qual a verdadeira razão de buscar essa evolução e analisar se essa razão é justificável em um universo coletivo.

Essas são questões iniciais e, assim sendo, superficiais que pretendo discutir nesse processo de encarar Macbeth.



Escrito por Cesar Ribeiro às 13h58
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MACBETH - um processo



Então está decidido: começo hoje a estudar para montar a peça Macbeth, de Shakespeare. É projeto antigo que resolvi finalmente encará-lo. Já tava passando da hora. Vou tentar aos poucos ir abastecendo este espaço com questões e comentários sobre o processo.



Escrito por Cesar Ribeiro às 15h54
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DEMOCRACIA OU MORALIS DICTABUNDUS EST - CESAR RIBEIRO


Deixa o navio afundar
Deixa marujos nadarem no oceano
Deixa o farol quebrar
Ratos há muito precisam de diversão.

Deixa o circo pegar fogo
Deixa europeus voltarem a Kaspar
Deixa meninas voarem pela janela
Palhaços querem rir sem a máscara.

Deixa bigs na moldura
Deixa a frase atravessada
Deixa a obra como consumo
Cadeiras sempre gostam de cadáveres.

Deixa o trabalho ser a grana
Deixa o tapa no rosto na amante
Deixa o travesseiro acolher a baba
Camas às vezes exigem descanso.

Deixa a ninfeta na folia
Deixa o corpo com fluidos
Deixa a putaria curar a ressaca
Santos rogam a overdose.

Deixa a escrita cegar a fala
Deixa a vanglória fictícia
Deixa a ilusão nos blogues e sites e mesas de bar
Arrogantes brigam por consolo.

Deixa padres brincarem de balão
Deixa terremotos sacudirem a cidade
Deixa notícias estamparem os jornais
Deus também precisa de religião?



Escrito por Cesar Ribeiro às 14h59
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LEONARD COHEN - EVERYBODY KNOWS



Escrito por Cesar Ribeiro às 14h47
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LEADBELLY - GOODNIGHT IRENE



Escrito por Cesar Ribeiro às 17h16
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MALUCOS TAMBÉM TRABALHAM

O grande camarada Cristian Cancino, que está gestando o primeiro híbrido de câmera com cerveja, vai dar uma oficina de vídeo voltado pra teatro e artes performáticas. Lá na Oswald de Andrade (Sampa) e digratis. As inscrições vão até o dia 18. Fechou?



Escrito por Cesar Ribeiro às 14h08
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RATOS JOGAM XADREZ NA ESCURIDÃO



Em alguma curva do caminho me tornei um idiota. Não sei bem como isso aconteceu, mas confesso que não tem sido uma experiência agradável olhar para o abismo e reconhecer a própria inabilidade, ainda mais se pensar em tudo o que venho perdendo por causa desse meu estado de idiotice. Ando me afastando de todos para não causar incômodo e para que não percebam o quanto sou desagradável. Sou limitado, finjo conhecimentos que não tenho e os que tenho não passam de uma superficialidade moldada para encobrir defeitos que grudam na pele e no cérebro como carrapatos neonazis. Houve dias em que pensava o quanto seria bom me tornar alguém especial, alguém que poderia mudar o mundo, ainda que seja dentro de uma casca de noz, com o simples argumento. Com tempo, comecei a me contentar em passar despercebido pelos lugares, como um cachorro que não quer ser chutado pelo bêbado do boteco da esquina. Hoje evito sair a todo custo, busco não trocar idéias, não sentar em mesas de bar para conversar sobre os filmes a que não assisti, os livros que não li e as peças que não vi. Sou uma fraude. Confesso. Ainda consigo enganar algumas pessoas mais desavisadas. Elas assistem às minhas peças idiotas e falam que gostaram. Algumas fazem isso para evitar constrangimento, por amizade e porque a maioria das pessoas realmente não suporta a verdade, ainda que diante da linha de tiro. Outras realmente gostam. Devo me preocupar mais com o caráter de quais dessas pessoas? Elas se afastam de mim em questão de segundos. Basta ultrapassar a primeira vírgula da primeira página que desistem do livro. Como se tornar interessante? Como fabricar uma fachada de mistério que indique que há algum conteúdo a ser descoberto? Adianta se preencher de cultura, ler os filósofos, participar de debates com sociólogos, acompanhar as notícias sobre a economia e a política e criar conceitos sobre o mundo se tudo isso não leva a nada que não seja uma desconexão com a vida? Adianta montar peças de teatro que serão assistidas por meia dúzia de gente, pela família e os amigos próximos, por aqueles que ainda não perceberam que você é fraude? Ando pensando bastante sobre o que é se dar bem na vida. Tenho minha moto, meu apartamento, meu restrito círculo de amigos, meus trabalhos... Tenho minha solidão. Há sim as festas, em que chego e cumprimento a maioria das pessoas, são amigos e conhecidos, para depois chegar em algum canto e fingir que estou lá. Puxar uma cerveja gelada e um cigarro quente e olhar o ambiente em que todos dançam, todos conversam, todos seduzem, enquanto você fica no canto com medo de aproximar-se para não encher a paciência de ninguém. Como aproximar-se? Como encontrar a pessoa certa, o toque certo, a palavra certeira? Como cativar o outro se nem a si mesmo consegue cativar? Sei, vivo fazendo discursos mesmo sabendo que preciso calar a minha boca para não entrar na verborragia. Ainda que me saiba um idiota, por vezes o sangue ferve e esqueço minha idiotia, e desando a falar como se fosse o mais profético dos profetas que pousaram nesta terra de insensatez e incoerências.

Quando eu descobri que era um idiota, estava sentado em um bar. Ela falou que...



Escrito por Cesar Ribeiro às 12h05
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O FURIOSO ROSNADO DE UM CACHORRO DE PELÚCIA - CESAR RIBEIRO



Apesar de profundo conhecedor de macacos terroristas e besouros suicidas, Gercivânio queria saber mais era do próprio umbigo. Vivia cercado de odaliscas nuas que depositavam o mingau de aveia na boca murcha e sopravam a gosma para esfriar, numa espécie de beijo platônico. Gercivânio não era afeito a afetos. O máximo que permitia era uma língua vermelha tingir de leve seu pau roxo.

Gostava de cores assim, vivas e latentes, enquanto assistia ao último episódio da série do momento e calculava o número de guilhotinados da manhã seguinte. Imperador de um quintal cheio de orquídeas e caldo de lingüiça de churrascos regados a pagode mal passado, ele desfilava sua cintura calibre 127 entre as cortesãs, sedentas por um fanfarrão que lhes desse a cama e a prataria. Com o dedo mínimo apontava as ninfetinhas que deveriam acompanhá-lo a cada noite em seu jogo de dominó de matemático que passou de ano porque foi bom menino com o professor garanhão e apreciador de meninos de tenra idade.

Sabia, em meio a seus pensares sociais e hambúrgueres vitaminados, que a escolha dos pingüins artesãos como inimigo público número 1 desagradaria às mamutes machistas, mas tirava onda da cara de brejo das figuras quando era madrugada alta. Com seu palito de dente no canto esquerdo da boca, pediu para a ninfeta número 16 coçar a sua careca reluzente enquanto escrevia o nome dos condenados. O prazer era semelhante ao de uma orgia brasiliense. Ou aquela do quarto ao lado, aquela em que você nunca está presente, ou por estar jogando bola com os amigos ou debruçando uma gelada goela abaixo, ou simplesmente porque você não é a mais simpática das criaturas que se possa convidar para um bacanal grecotupiniquim.

De qualquer maneira, enquanto pensava nos bicos de pingüins sendo separados do corpo pela lâmina afiada de um carrasco contratado para a ocasião, resolveu ligar para sua velha mamãezinha e perguntar como andava a vida de mulher barbada de circo real. A mãe, querida do coração e do ventre, disse que tinha dia que de noite era foda, que o circo pegou fogo e sobrou pra barba. Agora, meu filhinho, agora só daqui a um mês.

Cabisbaixo e meditabundo, soturno e furibundo, Gercivânio expulsou todas as ninfetas do dormitório, sentou-se na imensa poltrona vermelha aveludada e começou a acarinhar um cachorrinho de pelúcia, com ares de bebezinho que quer fumar um charuto cubano mas só vê pela frente um Derby.

Depois de alguns chororôs que umedeceram o travesseiro, conseguiu pegar no sono e sonhar com um império em que os súditos tinham todos o corpo de Sylvester Stalone antes dos 120, a cara de Tony Ramos e a bunda de Angelina Jolie. O prazer que sentia era visível na baba que escorria pelo canto direito da boca e molhava o cãozinho de pelúcia, que esboçava alguns rosnados plásticos e puxava o osso de lado.

Mexeu-se para a direita, mexeu-se para a esquerda, deu alguns achaques de velho tarado rodrigueano e acordou todo playmobill, sabendo que em breve duzentos e quarenta e nove pinguinzinhos seriam mortos ao simples comando de seus dedos. Olhou-se no espelho. Era um homem feliz.



Escrito por Cesar Ribeiro às 13h36
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PARANGOMONIUS - CESAR RIBEIRO



Sua cansa deita dorme ronca pede concede abraça mente mete remete arremete a foda o gozo a vagina aberta o pau estatelado no asfalto mais uma madrugada mais uma noite mais um sorriso e uma tristeza que fica que vaga que surge do nada e some do nada a confusão a absolvição a privada o chuveiro a punheta um corpo caído na cama em sono (nenhuma luz atravessa o corredor. No alto há um altar; na parte baixa, um demônio vestido de domingo. Ele liga a tevê e bebe minha cerveja e fuma meu cigarro e veste minhas roupas. Um espelho errôneo diria que sou eu. Mas eu não. Há um pedaço de marfim. Um elefante tombado ao lado da escrivaninha, entre os papéis e a gorgonzola. Ele estava lá e não viu. Ela piscou mas não sorriu, ele beijou mas não tremeu. Ela não ligou. Ela ligou mas não disse nada. Ele disse que poderia ser hoje. Que estava cansado. Que a rotina. Que a meia maratona de São Paulo, que o jogo do Palmeiras. O grupo está sentado no canto do bar. São quatro mulheres altas e três homens baixos. Uma mulher está sem beijo. A mais bonita. Ela logo se arranjará. Todos sabem. Sorriem muito. Bebericam vinho de qualidade. Conversam sobre Munch e protozoários, passam perfumes franceses e espermas entre as mesas.) Houve um tempo em que eu sabia que



Escrito por Cesar Ribeiro às 17h17
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TRINTA E SETE CHAVES - CESAR RIBEIRO



Em cima da mesa eu sei que há um chaveiro. Ele está ao lado das cinzas de um cigarro que eu não fumei. Havia outra aqui. Eu sei que era ela quem segurava o cigarro. Não que eu tenha memória, mas as marcas de um batom vermelho comprovam. Não sei se sinto alguma falta. Nem se deixo a porta aberta ou passo a tranca. Ouço as pessoas falando sobre o tempo. Dizem que seus filhos estão com tantos anos de idade, que estão mudando para uma nova casa, que o banheiro está em reforma. Tudo está em trânsito. Estou em transe. Nada se transforma. Mas eu sei que em cima da mesa há um chaveiro. A porta é branca e basta um virar de chave para abri-la, colocar pé para fora, apanhar elevador, cruzar desconhecido vizinho que falará novamente sobre o tempo e pegar estrada. Não. Não interessa o caminho. No percurso haverá cadáver, atropelamento, cachorros raivosos e um sol que deseja cumprir suas promessas de brilho. Pessoas falam sobre suas vidas, anunciam como é potente o computador adquirido ontem em cinco vezes numa loja na Santa Ifigênia, dizem que colocaram um novo poema em seus blogues, juram que gostariam muito de levar uma relação a sério mas que fidelidade é coisa de macaco albino, reclamam da falta de união política entre partidos tão semelhantes, elogiam um novo corte de cabelo, brigam com velhas crianças que cheiram cola em praça pública... A sensação que tenho é de um antigo mendigo sentado sempre na mesma praça, distante dos outros, sem pedir trocado, sem aceitar gole de cerveja, sem se aproximar da mesa do bar para pedir pouco de conversa. Nada disso é real. Há mulheres olhando. Elas vêem beleza. Elas se aproximam. Talvez até demais. Casais saem do teatro e procuram o diretor. Olham. Apresentam-se. Cumprimentam e elogiam. Procuro o primeiro bueiro da Roosevelt para esconder minha vergonha. Há uma estranha desconexão quando nada há de errado com o mundo e mesmo assim você se sente um orangotango passeando pelado numa marcha militar na Praça Vermelha. Mas eu sei que no canto esquerdo da sala há uma mesa. Há sabão em pó, algumas garrafas de tequila, verduras hidropônicas, saco de arroz, detergente em pó com aroma de limão... e há também o velho chaveiro. São trinta e sete chaves. É impossível que nenhuma delas...



Escrito por Cesar Ribeiro às 15h39
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A HAPPY FISH - CESAR RIBEIRO



Vamos embora?
Ela disse entre pedras de plástico
E olhares da clientela.

Sabia
que a indigestão seria brava
que o engov havia acabado
que um pé de galinha seria melhor que seu olho de peixe
que em cuba nasce muito cubano
que alface cura a culpa
que cirurgia somente plástica
que bordel só luz vermelha
que boca só sorriso
que no cu só antes da refeição.

Resolveu assumir-se aquário
Numa manhã de muita cachaça
Algumas clorofilas
E um duende verde espreitando
A mão na vagina.

Não tinha pavor da sobremesa
Mas o elástico na cintura
Ditava a regra.

Sabendo-se um peixe feliz
Atravessava a longa noite de seu mar
Cuspindo bolhas
E brincando com o boneco
Deitado no canto
Ao lado do vidro
E do respiradouro
Daquele velho restaurante.
Aquele
Dos little tomatoes
Em que um peixe fêmea
Fingia elevados prazeres.



Escrito por Cesar Ribeiro às 18h03
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LITTLE TOMATOES - CESAR RIBEIRO



Um passo atrás do outro.
Um sinal.
Ela está sentada na mesa do restaurante
Entre talheres de ouro
E rostos de porcelana.

O dedo mindinho distante da xícara.
A pose de velha senhora disfarçando o precipício
Que se abre em seu estômago
Enquanto pega o pó branco.
Açúcar, não o outro.

Ouviu falar de uma mulher feliz que vagava pela China
Recebeu cartas de um príncipe encantado sem rosto
Mastigou sonhos no banco traseiro do veículo
Cuspiu poesia de botequim na noite alta.

Só não lembrou de regar
Seu altar cheio de santos e cheiro de mijo
Que estava escondido atrás da máquina de lavar
Nem prestou muita atenção
Quando anunciaram que o tomate
Tava em promoção na banca 1.

Um vira-lata passou
Abanando o rabo entre as mesas e as pernas.
Piscou para ela e pregou o evangelho
Em grego futurista
E aramaico pós-moderno.

Ela sorriu.
Talvez o primeiro sorriso da semana.
Pegou sua bolsa vermelha
E viu que os ossos haviam acabado.
Pensou em chorar
Mas estava seca apesar do chá.



Escrito por Cesar Ribeiro às 17h37
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CRÍTICA DE DIÁLOGO INÚTIL DO ABISMO COM A QUEDA - POR TOM PARANHOS



Diálogo Inútil do Abismo com a Queda - por Tom Paranhos

A Cia de Orquestração Cênica está em cartaz no Espaço dos Satyros em São Paulo
com o espetáculo Diálogo inútil do Abismo com a queda. Com texto e direção de César Ribeiro e inspirado na obra de Beckett, o espetáculo produz uma síntese do que há de mais característico na obra do grande dramaturgo europeu: O impasse, a espera, a ação elástica que não se realiza, tarda, se estende, se comprime...


Se as personagens de Beckett são, por natureza, fragmentadas e herméticas, nesta montagem nos deparamos com um agravante: A caracterização clownesca não ocorre de um modo muito claro. Há um tom de falsete na voz dos atores que, por vezes, provoca um grande distanciamento entre estes e as personagem. Os atores “patinam” entre a observando e a “ação” aqui tomada na dimensão mais Becketiana possível. O clown auto-centrado, insuficiente, instintivo oprimido pela prisão ao instante do qual está deslocado estão muito mais materializados pelas imagens e sugestões do autor que inspirou o espetáculo do que da interpretação propriamente dita, a qual, não parece querer fixar estes traços conforme tem sido feito tradicionalmente com as peças de Beckett numa intensa busca do instante, da supressão do tempo. Diferentemente do que ocorre em Esperando Godot onde as personagens não têm passado, em Diálogo inútil do Abismo com a queda elas estão em relação direta de resgate e resignificação de seus passados. Assim como os clows - essa linguagem é sugestão do próprio Beckett que era apaixonado por esse universo - outro elemento que parece vir muito mais da característica becketiana de montagem é a utilização a linguagem de cartuns e HQs proposta pela encenação, a seqüência de imagens é bem definida mas não se diferencia da estética de outras montagens recentes como Esperando Godot de Gabriel Villela e Fim de Partida de René Piazentin que também utilizam a limpeza cênica, quadros fotográficos, mas clowns muito mais coesos.

No processo de Esperando Godot de Gabriel Vilela que ficou em cartaz no SESC em 2006, as atrizes tiveram aulas de máscaras neutra com a Profa. Dra. Maria Thais, foi realizado um intenso trabalho de corpo, dando enfoque ao deslocamento arquetípico do homem sobre a terra. Para Gabriel Villela, Samuel Beckett é a síntese e a crônica da humanidade no mundo pós-guerra. Esperando Godot enfatiza o extremo das relações humanas ilustrado na convivência de Vladimir e Estragon que passam todo o espetáculo aguardando a chegada de uma terceira personagem capaz de atribuir algum significado para as suas existências, Godot. A peça atinge uma genialidade absurda e comovente ao mostrar aos espectadores que a vida pode ser apenas a iminência de... De que? A busca incessante pela mudança que nunca ocorre. É um texto que esvazia algo que é fundamental para o teatro: a ação. Em Esperando Godot simplesmente não existe ação. O próprio diálogo foi esvaziado. A fala dos personagens não evolui para o encerramento de um conflito dramático serve apenas como uma bengala para mostrar o raciocínio tortuoso dos dois principais personagens. A angústia desta obra reside no fato de que o inicialmente leve, engraçado, atrapalhado não se resolve no final. A peça se abre para uma violenta comparação profundamente filosófica com a vida.

Uma possibilidade que parece ser aberta na montagem de Diálogo inútil do Abismo com a queda, é a de aumentar a autonomia dos encenadores diante deste dramaturgo sobre o qual tantos clichês de encenação e interpretação se acumulam. É necessário deformar mais a obra, “degluti-lo, mastigá-lo”, fugir dos modelos tradicionais de montagem de um autor que jamais demonstrou apego ao tradicional.
Provavelmente a peça de Beckett que mais apresenta paralelos com a montagem em cartaz no Satyrus é Fim de Partida que para muitos é sua realização mais bem acabada. A obra trata da solidão e da impotência humana. Num cenário apocalíptico de um mundo em destroços, os personagens jogam com o desespero e o riso amargo. O texto que transita em o trágico e o cômico tem peso de ironia e personagens densos. Seu nível de truncamento impede que fáceis conclusões a respeito sejam extraídas. Há ideologia em Beckett? É possível encontrar chaves simbólicas nos diálogos estropiados entre Hamm, misto fracassado de ditador e artista frustrado, e Clov, seu serviçal. Os aleijões de Beckett que também aparecem em Diálogo inútil... representariam uma síntese contra a sociedade moderna?

Assim como em Fim de Partida, não temos em Diálogo Inútil... uma sinopse muito extensa, ao contrário. A peça narra a história de um casal de velhos juntos a 350 anos que voltaram ao local em que se casaram para se separar. O silêncio, como na primeira, impera nos pontos altos do espetáculo que, também atipicamente, possui trilha sonora e iluminação que fogem à tradição das montagens de Beckett. Ocasionalmente aparece a figura do mutilado que vive dentro de uma espécie de lata de lixo. Os três apresentam dificuldades físicas com deformidades causadas pela idade ou pela mutilação. A poderosa extensão das micro-ações em longos jogos de cena é o ponto forte do espetáculo. O público não se cansa e fica marcada a força cênica do absurdo. É justamente a marca econômica de Beckett que o fez se distinguir de seus contemporâneos e conterrâneos geniais James Joyce e Marcel Proust com seus intermináveis Ulisses e Em busca do tempo perdido, respectivamente. No fim da vida, Beckett foi compondo peças cada vez menores com recursos cênicos e verbais mínimos. Os personagens, eles próprios fragmentos, repetem gestos automatizados falam com clichês e pedaços de frase, contam pedaços de histórias que não se resolvem nem apontam um sentido. Assistir Beckett é sempre um exercício necessário de angústia e inquietação.

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Escrito por Cesar Ribeiro às 13h35
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QUANTO CUSTA UM PÔR-DE-SOL - LEONARDO BOFF



Um grande empresário americano, estando em Roma, quis mostrar ao filho a beleza de um pôr de sol nas colinas de Castelgandolfo. Antes de se postarem num bom ângulo, o filho perguntou ao pai:”pai, onde se paga”? Esta pergunta revela a estrutura da sociedade dominante, assentada sobre a economia e o mercado. Nela para tudo se paga - também  um pôr de sol -  tudo se vende e tudo  se compra. Ela operou, segundo notou ainda em 1944 o economista norte-americano Polanyi, a grande transformação ao conferir valor econômico a tudo. As relações humanas se transformaram em transações comerciais e tudo, tudo mesmo, do sexo à Santísssima Trindade, vira mercadoria e chance de lucro.

Se quisermos qualifica-la, diríamos que esta é uma sociedade produtivista, consumista e materialista. É produtivista porque explora todos os recursos e serviços naturais visando o lucro e não a preservação da natureza. É consumista porque se não houver consumo cada vez maior não há também produção nem lucro. É materialista pois sua centralidade é produzir e consumir coisas materiais e não espirituais como a cooperação e o  cuidado. Está mais interessada no crescimento quantitativo – como ganhar mais – do que no desenvolvimento qualitativo – como viver melhor com menos – em harmonia com a natureza, com equidade social e sustentabilidade sócio-ecológica.

Cabe insistir no óbvio: não há dinheiro que pague um pór do sol. Não se compra na bolsa a lua cheia “que sabe de mi largo caminar”. A felicidade, a amizade, a lealdade e o amor não estão à venda nos shoppings. Quem pode viver sem esses intangíveis? Aqui não  funciona a lógica do interesse, mas da gratuidade, não a utilidade prática mas o valor intrínseco da natureza, da ridente paisagem, do carinho entre dois enamorados. Nisso reside a felicidade humana.

O insuspeito Daniel Soros, o grande especulador das bolsas mundiais, confessa em seu livro A crise do capitalismo (1999):”uma sociedade baseada em transações solapa os valores sociais; estes expressam um interesse pelos outros; pressupõem que o indivíduo pertence a uma comunidade, seja uma família, uma tribo, uma nação ou a humanidade, cujos interesses têm preferência em relação aos interesses individuais. Mas uma economia de mercado é tudo menos uma comunidade. Todos devem cuidar dos seus próprios interesses...e maximizar seus lucros, com exclusão de qualquer outra consideração”(p. 120 e 87).

Uma sociedade que decide organizar-se sem uma ética mínima, altruísta e respeitosa da natureza, está traçando o caminho de sua própria auto-destruição.

Então, não causa admiração o fato de termos chegado aonde chegamos, ao aquecimento global e à aterradora devastação da natureza, com ameaças de extinção de vastas porções da biosfera e, no termo, até da espécie humana.

Suspeito que ao não quebrarmos o paradigma produtivista/consumista/materialista em direção do cultivo do capital espiritual e da sustentação de toda a vida, com um  sentido de mútua pertença entre terra e humanidade, podemos encontrar pela frente a escuridão.

Devemos tentar ser, pelo menos um pouco,  como a rosa, cantada pelo místico poeta Angelus Silesius (+1677)  : “a rosa é sem porquê: floresce por florescer, não cuida de si mesma nem pede para ser olhada”(aforismo 289). Essa gratuidade  é uma das pilastras do novo pardigma salvador.



Escrito por Cesar Ribeiro às 15h46
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DIÁLOGO INÚTIL DO ABISMO COM A QUEDA - Estréia 20 de março - Em Sampa

 

Abismo - "E se nós descobríssemos que já estamos mortos?
Queda - Que tem?
Abismo - Não sofreríamos tanto.
Queda - Você ainda sofre?
Abismo - Às vezes eu sinto uma dor aqui (aponta o estômago)

Inspirada em Beckett e utilizando a linguagem dos HQs e cartuns, a peça narra a história de um casal de velhos que estão juntos há 350 anos e voltam ao local em que casaram para se separar.

R$ 20 (meia para estudantes e classe artística. Mas se você não pertence a nenhum desses grupos e quer pagar meia entrada, deixa um recado aqui no blog com seu nome e de seus convidados pedindo para entrar na LISTA CAMARADA. A lista ficará disponível na bilheteria do teatro durante toda a temporada)



Escrito por Cesar Ribeiro às 14h02
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CIA BORELLI DE DANÇA - TRILOGIA KAFKA

Um dos grupos mais bacanas da dança contemporânea brasileira levando ao palco espetáculos embasados em Kafka. Precisa falar mais?



Escrito por Cesar Ribeiro às 12h34
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SERES DE LUZ - DE LEONARDO BOFF



Obviamente o pensamento segue a linha religiosa e otimista em relação à "redenção" humana, afinal se trata de um teólogo. Esquecendo esses pontos sobre a explicação do universo e da vida de um prisma divinizatório e deixando de lado a opinião sobre a possibilidade de evolução do ser segundo princípios da "bondade" coletiva, o legal é perceber a filosofia contida no artigo. É bom lembrar que a filosofia (amantes da verdade) inicial buscou nas forças naturais a explicação para a vida e o raciocínio, o elemento primordial que gerou a criação do mundo (água, quatro elementos, ar...). O bacana do texto é explorar a simbologia do sol e da luz, algo que reflete a idéia de renovação humana, o processo de nascimento, maturidade e morte como etapas da vida (uma convenção). Não à toa o sol é o símbolo principal do cinema de Spielberg. É por aí. Segue então mais um de Leonardo Boff, autor/criador da grande Teologia da Libertação.

SERES DE LUZ, de Leonardo Boff

A luz constitui um dos maiores mistérios do universo. Somente entendendo-a ao mesmo tempo como partícula material e como onda energética podemos ter uma compreensão mais ou menos adequada dela. Hoje sabemos que todos os seres vivos emitem luz, biofotons, a partir das células da DNA. Por isso todos irradiam certa aura.

Não é sem razão que a luz e o sol se tornaram símbolos poderosos de tudo o que é positivo e vital. Especialmente o sol irradiante é visto como o grande arquétipo do herói e do lutador que vence as trevas com os monstros que nelas eventualmente se escondem. Sua aparição a cada manhã não é uma repetição, mas toda vez uma novidade, pois é sempre diferente. É um teatro cósmico que começa da cappo, como se Deus dissesse ao sol a cada manhã:“Vamos, tente mais uma vez! Renove teu nascimento! Irradie tua luz em todas as direções e sobre todos”.

Na maioria dos povos havia o temor de que o sol talvez pudesse ser tragado pelas trevas e não voltasse mais a nascer e a iluminar a Terra e a cada um de nós. Criaram-se rituais e festas que celebravam a vitória do Sol sobre as trevas. Assim, havia a festa romana do Sol Invictus, do “Sol Invencível”. Posteriormente, deu origem ao Natal cristão, a festa do nascimento do Deus encarnado , chamado de “o Sol da Justiça”. As festas juninas com suas fogueiras têm por detrás a experiência do sol, pois se inaugura o solstício de inverno.

Fazia-se e faz-se ainda hoje a impressionante experiência de que o Sol com seus raios de luz, nasce como uma criança. Na medida em que sobe no firmamento, vai crescendo como um adolescente até chegar à idade adulta ao meio-dia. Pela tarde vai definhando até ficar velho e morrer atrás da linha do horizonte. Mas, passada a noite, ele volta a nascer, limpo, brilhante, sorridente como uma criança. Como não celebrá-lo festivamente? Como não entendê-lo como sinal da Realidade originadora de todas as coisas?

De fato, ele é uma imagem poderosa de Deus como o cantou São Francisco em seu “Cântico ao Irmão Sol”. Nenhuma metáfora da divindade é mais poderosa que a da luz e a do Sol. A própria experiência da luz fez surgir a palavra Deus. Ela deriva de di em sânscrito que signfica brilhar e iluminar. De di veio “dia” e “Deus”, como expressão de uma experiência de luz e de iluminação. Como diz São João: ”Deus é luz” (1Jo 1,5). “Ele habita”, no dizer de São Paulo “numa luz inacessível”(1Tim 6,16). Jesus se auto-apresenta como luz: “Eu, a luz, vim ao mundo para que todo aquele que crê não ande nas trevas”(Jo 12,46) O Verbo encarnado é “vida e luz dos homens”, “luz verdadeira que ilumina todo o ser humano que vem a este mundo”(Jo 1.4.9). Por isso é com razão apresentado como “a luz do mundo”(Jo 9,5). Os que aderem a Cristo como luz devem viver “como filhos da luz”(Ef 5,8). E “os frutos da luz é tudo o que é bom, justo e verdadeiro”(Ef 5,9). Mais ainda. Cada seguidor deve ser também “luz do mundo”(Mt 5,14).

Como reza tão bem a liturgia dos funerais:”Que as almas do fiéis defuntos não tombem nas trevas, mas que o arcanjo São Miguel, as introduza na luz santa. Faça brilhar sobre eles a luz perpétua”.

Nós todos somos seres de luz. Fomos formados originalmente no coração das grandes estrelas vermelhas, há bilhões de anos. Carregamos luz dentro de nós, no corpo, no coração e na mente. Especialmente a luz da mente nos permite compreender os processos da natureza e penetrar no íntimo das pessoas até no mistério luminoso de Deus.



Escrito por Cesar Ribeiro às 13h13
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