Abaixo segue o vídeo da versão duca da banda Modena City Ramblers para a canção Bella Ciao. O grupo italiano mistura folk e rock para fazer uma música que prioriza a liberdade, o comunismo e o anarquismo, além da luta contra a máfia. Já Bella Ciao é uma canção popular da resistência italiana durante a Segunda Guerra Mundial. Na versão que está no vídeo os caras ainda são acompanhados por Goran Bregovic, que criou trilhas para alguns filmes do Emir Kusturica, como os geniais Underground e Vida Cigana. Quem tiver interesse em conhecer mais coisas dos figuras, vale a pena ouvir Fischia Il Vento e Il Cento Passi. Os caras também têm uma versão do hino L'Internazionale. Sonzeira!
Engraçado como as ideias surgem. Numa conversa recente, uma amiga perguntou algo como qual era a minha rotina em relação à escrita. Sou como Chico Buarque, acho mais prazeroso ler do que escrever. Escrevo por pura necessidade de ver refletidas totalmente as minhas ideias em um texto, principalmente para teatro. Mas por que estou dizendo isso? Porque há dois anos voltei com meu grupo, e com ele normalmente monto textos meus. Estava meio de saco cheio de só ouvir meu verbo e a vontade era no próximo ano encenar Beckett ou Nelson Rodrigues. As coisas foram caminhando e fui percebendo que os atores não encontram muito de si nos textos prontos, o que fez com que começasse a me preparar para sentar e escrever uma nova peça. Na última conversa que tivemos, no domingo, depois da apresentação de Sessenta Minutos Para o Fim, a coisa se confirmou e eles disseram que gostariam de montar um texto inédito. Quer dizer, um texto meu, seja escrito durante um processo ou já pronto. Escrever é ter tempo livre de qualquer outra coisa. É poder sentar e pensar no mundo, no que acontece ao nosso redor. A reflexão precede a escrita. E num estalo as coisas se encaixam na cabeça, fazendo com que a escrita seja apenas o cérebro na ponta dos dedos, gritando com o teclado. Tudo isso porque o estalo para o novo projeto veio hoje, com o som ligado no último volume. Conhecem a música Protect Me From What I Want, do Placebo? O vídeo tá logo abaixo pra vocês darem uma sacada. Acho duca a música, mas a chave geral já vem no título: a necessidade de proteção em relação ao que nós mesmos desejamos, em todos os sentidos. Tou com a música rolando repetidas vezes há algumas horas, e as cenas aparecem na cabeça, os personagens surgem do nada, a história se faz. A personagem-símbolo? Uma noiva grotesca em busca de alguém que aceite receber uma rosa de plástico sempre recusada. Um pseudodiálogo entre o que queremos falar, a ideia transmitida pela música e o personagem da Noiva Cadáver, do Tim Burton. Isso para gerar uma discussão sobre quem somos, nossos desejos e nossa ideia de felicidade. Será esse o tema da próxima bagaça?
Segue mais um trecho da peça Somente os Uísques São Felizes, que apresentaremos no Espaço dos Satyros de 5 de setembro a 25 de outubro, aos sábados e domingos 18h30. A bagaça é interpretada por Ulisses Sakurai e Priscilla Maia e conta a seguinte história: um homem precisa juntar 13 bitucas de cigarro para salvar a humanidade do juízo final. Faltando apenas uma, ele se vê preso em um aposento depois que a chave foi comida por um pássaro de pelúcia com prisão de ventre. Eae, que acham?
SOMENTE OS UÍSQUES SÃO FELIZES - direção e texto de Cesar Ribeiro
(Homem caminha até a pilha de jornais e revistas. Abre uma das revistas e observa o pôster de uma mulher nua. Fala, com tesão)
Miss Novembro. Sempre foi a minha predileta.
(surge um foco de luz vermelha. Luz amarela se apaga. Homem vira-se de costas para o público e começa a se masturbar, aos poucos atingindo o orgasmo)
São quinze bailarinas nuas. E uma anã colombiana preparando o haxixe para depois do gozo final. Elas mordem o mamilo das outras, socam meu escroto gentilmente, oram uma indizível prece. (imita a prece, em meio ao gozo) Anderwais graton belizarium. Anderwais graton belizarium. Anderwais graton... (quase gozando) Um automóvel passa em alta velocidade e xinga os edifícios sonolentos. A cidade dorme. O sol se cala. Um sábio viking de quatrocentos e oitenta anos passa gritando: (quase gozando, imitando o grito do sábio) somente são felizes... Somente são felizes... (berra a frase, em meio ao gozo) Somente os uísques são felizes!
Lembro que ela berrou qualquer coisa sobre eu ser um grandissíssimo filho da puta, bateu a porta e desceu quebrando tamancos pela Augusta. Lembro de uma garrafa de vinho estilhaçada no chão, uma taça quase vazia e um iPod ainda tocando "You are my sunshine...".
Chegou silenciosa como quem nada quer. O olhar na perna da mesa contando rachaduras no chão. Serás, porquês. Ditos e não ditos. “Sim, eu sei que minha poesia não vem em rimas. Está mais para prosa dissonante.” Metade me abraça. Metade se afasta. Mensagens como distâncias percorridas. Um destilado atrás do outro. Tudo que está fora de lugar busca espaço?
Segue um trecho da peça Somente os Uísques São Felizes, que apresentaremos no Espaço dos Satyros de 5 de setembro a 25 de outubro, aos sábados e domingos 18h30. A bagaça é interpretada por Ulisses Sakurai e Priscilla Maia e conta a seguinte história: um homem precisa juntar 13 bitucas de cigarro para salvar a humanidade do juízo final. Faltando apenas uma, ele se vê preso em um aposento depois que a chave foi comida por um pássaro de pelúcia com prisão de ventre. Eae, que acham?
SOMENTE OS UÍSQUES SÃO FELIZES - direção e texto de Cesar Ribeiro
Eu já te contei como era quando eu era feliz? (grandiloquente) Ah, a felicidade! (um tanto pérfido) Um moleque cai da janela e um jovem morre esmagado. Os helicópteros cruzam as cidades. Ambulâncias em marcha pelo concreto. “Salvem os velhinhos”, grita uma barata se escondendo no esgoto. “Diga não aos proctologistas”, retruca uma formiga insana. “Votem em mim”, clama um senador embalsamado. A confusão se instala e tudo o que você quer é chegar em casa e colocar o pijama. Dormir sem sonhar. Sem acordar durante a madrugada para um xixizinho. O café está te esperando com cara de ressaca. Sua esposa ronca de um lado para outro. “Cadê o seu espaço?”, você pergunta angustiado. Então vai até a sala e liga o aparelho. (com tesão) Que saudades das ninfas de auditório! Elas circulam a bunda para a direita. Circulam para a esquerda. Aquela bunda é sua. Ela te espera. (como um mantra obsessivo) “Vamos, caminhe até a bunda. Alimente a bunda. Deseje a bunda. Tenha a bunda em mente! Caminhe até a bunda. Alimente a bunda. Deseje a bunda. Tenha a bunda em mente! Caminhe até a bunda. Alimente a bunda. Deseje a bunda. Tenha a bunda em mente! Caminhe até a bunda. Alimente a bunda. Deseje a bunda. Tenha a bunda em mente!” (voltando ao tom da narrativa) O mantra é coletivo. Todos se masturbam em seus sofás nas noites de solidão. Jorra o creme nas emissoras, nas revistas, nos teclados... (imitando a voz caquética de um sábio) O indivíduo... somente é único... pelo caráter único... de sua individualidade, (voltando à própria voz) declara um velho profeta do amanhã. Todas as canções tocam ao mesmo tempo. Todos os ruídos são ouvidos. E você finalmente dorme. Um sono tranquilo... sem relâmpagos... sem mistérios... sem perguntas ou respostas. Você apenas dorme.