Boteco do Ribeiro - tequilas culturais & outras azambujas


ESPANCANDO O PORQUINHO



 

Com a estreia de Somente os Uísques São Felizes, última peça desta temporada de oito meses no Satyros, começou a finalmente sobrar tempo para fazer outras coisas que não fosse ensaiar. Aproveitei a semana para ver vários espetáculos. Doce Outono na terça, Aguardo Notícias da Polônia na quarta e Parasita na sexta. Hoje será a vez de O Tempo que Ficou (Incompleto). Todas as peças são muito bem dirigidas e interpretadas, o que não significa que sejam bacanas porque o que comanda é o gosto pessoal.

Muitas vezes falei sobre o quanto não gosto da linguagem realista. Acho que a TV, o cinema e a rua já cumprem essa função de mostrar a “realidade” semelhante ao real. Doce Outono é uma peça realista. Três cenas curtas interpretadas cada uma por uma dupla de atores. O que mais rola de bacana na peça são os silêncios e a ótima interpretação de Fernando Soffiatti, na cena que eu achei a melhor das três: dois irmãos separados pela vida se reúnem num momento em que o pai está morrendo. Os textos são muito bons, agora uma opinião: a peça deveria acabar sem a locução. Além de tudo já estar entendido, a mudança para a crítica à mídia, da forma como foi feita, já está bem batida.

Aguardo Notícias da Polônia, do camarada João Fábio Cabral com a camarada Julia Bobrow, tem uma temática interessante: uma mulher chega do interior à cidade grande com o sonho de ser cantora, mas vai se perdendo na multidão urbana e começa a se fixar em filmes de guerra, o que a leva a se apaixonar por um soldado polonês. Um mote bacana. Confusão realidade e sonho. E a peça nada tem de realista. Agora, novamente para reforçar: questão de gosto. A proposta de direção é muito bem executada pelos atores, mas infantiliza a interpretação. Com estrutura fragmentária, o texto deu margens a atuações em que toda a estética é formulada como ilustração. Quebra um quadro, ilustração. Quebra outro, ilustração. Fora isso, há exagero de sentimentalismo associado com a objetividade na hora de “passar a mensagem”. Mensagem, sempre a mensagem.

Parasita, texto da Gabriela Mellão com direção do Lucianno Mazza, já começou bem. Encontro com os camaradas Rodolfo, Ivam Cabral, Cléo de Páris, Geraldo Mário e Nelson Kao. E ainda conheci a Gabriela Mellão e o Lucianno Maza. A peça tem tudo a ver com o estilo de teatro de que gosto. Interpretações centradas na caricatura bem executada, texto que dá margem ao público complementar a história, direção precisa. Só não entendi a opção pela trilha sonora meio jazzística, acho que a montagem pede algo mais ágil. Os dois atores estão muito bem em cena, com um trabalho fueda de partitura vocal. E o ambiente todo branco, hospitalar, em um jogo de domínio muito bem fechado. Aparentemente a relação é médico/paciente, o que vai se quebrando até mostrar que toda a estrutura não passa de um sonho de um homem à espera da morte, que fantasia relações de afeto, a juventude e outros quitutes. Quer dizer, essa é minha leitura da peça.

Agora, o que amarra todas essas peças? A solidão. Todas elas, com linguagens e propostas diferentes, discorrem sobre esse tema. A fragmentação urbana levando os indivíduos à solidão, ao sentimento de nulidade, à tentativa de afeto, ainda que momentâneo. As ideologias de certa forma morreram, as pessoas se tornam mais individualistas e imediatistas, acabaram as esperanças de coletividade. Então sobre o que falar? Sobre o eu que se perde em toda essa onda de busca de felicidade individual. Sobre o eu que se depara com o outro. Também falo muito sobre isso em minhas peças, mas fica a pergunta: será que é só sobre isso que nosso tempo pode falar?

Também acho, cada peça a seu grau, que é preciso tomar cuidado com a seriedade, com a moralização dos textos. Transmitir mensagens é algo muito difícil, normalmente acaba caindo em frases feitas ou tentativas de criação de frases de impacto. Aguardo cai muito nisso. Já Doce Outono e Parasita esbarram pouco, mas ainda há coisas do tipo “Minha solidão é estar ao seu lado”. Não que essa frase exista em alguma delas, mas há coisas desse tipo.

De modo geral, é muito bom estar saindo da toca e ver o que andam fazendo por aí. Na faculdade de cinema um dos professores falava que assistir às coisas é como acumular capital: pega a ideia e enfia no bolso, como um cofre. Acho que é isso aí. Quando a hora chega, é só espancar o porquinho.


Escrito por Cesar Ribeiro às 18h25
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