Boteco do Ribeiro - tequilas culturais & outras azambujas


ADÁGIOS

Seguem três adágios e em seguida duas versões modernas. O primeiro é o adagio sostenuto da Sonata Para Piano no 14 (Sonata ao Luar), de Beethoven, composta em 1801. Ao piano, o maestro e pianista argentino Daniel Barenboim. Depois vem Adagio for Strings, composição de 1936 do norte-americano Samuel Barber que faz parte da trilha sonora de filmes como Platoon (Oliver Stone) e O Homem Elefante (David Lynch). O terceiro vídeo é a composição Adagio em G Menor, composto por Remo Giazotto em 1945 a partir de um fragmento de Albinoni, motivo pelo qual a música é conhecida como Adágio de Albinoni. Já na parte mudernosa seguem a variação eletrônica de Tiesto para Adagio For Strings e o guitarrista Yngwie Malmsteen tocando Adagio em G Menor. Enjoy! 











Escrito por @Cesar_Ribeiro às 12h41
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A MULTIDÃO CONTRA O DITADOR

Robert Fisk, The Independent, UK, 29/1/2011; tradução: @

 

tanques11.jpg
Pode ser o fim. Com certeza é o começo do fim. Em todo o Egito, dezenas de milhares de árabes enfrentaram gás lacrimogêneo, canhões de água, granadas e tiroteio para exigir o fim da ditadura de Hosni Mubarak depois de mais de 30 anos.

Enquanto Cairo mergulha em nuvens de gás lacrimogêneo das milhares de granadas lançadas contra multidões compactas, era como se a ditadura de Mubarak realmente andasse rumo ao fim. Ninguém, dos que estávamos ontem nas ruas do Cairo, tínhamos nem ideia de por onde andaria Mubarak – que mais tarde apareceria na televisão, para demitir todos os seus ministros. Nem encontrei alguém preocupado com Mubarak.

Eram dezenas de milhares, valentes, a maioria pacíficos, mas a violência chocante dos battagi – em árabe, a palavra significa literalmente “bandidos” – uniformizados sem uniforme das milícias de Mubarak, que espancaram, agrediram e feriram manifestantes, enquanto os guardas apenas assistiam e nada fizeram, foi uma desgraça. Esses homens, quase todos dependentes de drogas e ex-policiais, eram ontem a linha de frente do Estado egípcio. Os verdadeiros representantes de Hosni Mubarak.

Num certo momento, havia uma cortina de gás lacrimogêneo por cima das águas do Nilo, enquanto as milícias antitumultos e os manifestantes combatiam sobre as grandes pontes sobre o rio. Incrível. A multidão levantou-se e não mais aceitará a violência, a brutalidade, as prisões, como se essa fosse a parte que lhe coubesse na maior nação árabe do planeta. Os próprios policiais pareciam saber que estavam sendo derrotados. “E o que podemos fazer?” – perguntou-nos um dos guardas das milícias antitumulto. “Cumprimos ordens. Pensam que queremos isso? Esse país está despencando ladeira abaixo.” O governo impôs um toque de recolher noite passada. A multidão ajoelhou-se para rezar, à frente da polícia.

Como se descreve um dia que pode vir a ser página gigante da história do Egito? Os jornalistas devem abandonar as análises e apenas narrar o que aconteceu da manhã à noite, numa das cidades mais antigas do mundo. Então, aí está a história como a anotei, garatujada no meio da multidão que não se rendeu a milhares de policiais uniformizados da cabeça aos pés e e milicianos sem uniforme.

Começou na mesquita Istikama na Praça Giza: um sombrio conjunto de apartamentos de blocos de concreto, e uma fileira de policias especializados em controle de tumultos que se estendia até o Nilo. Todos sabíamos que Mohamed ElBaradei ali estaria para as orações do meio dia e, de início, parecia que não haveria muita gente. Os policiais fumavam. Se fosse o fim do reinado de Mubarak, aquele começo do fim pouco impressionava.

Mas então, logo que as últimas orações terminaram, uma multidão de fiéis apareceu na rua, andando em direção aos policiais. “Mubarak, Mubarak”, gritavam, “a Arábia Saudita o espera”. Foi quando os canhões de água foram virados na direção da multidão – a polícia estava organizada para atacar os manifestantes, mesmo não sendo atacada. A água atingiu a multidão e em seguida os canhões foram apontados diretamente contra ElBaradei, que retrocedeu, encharcado.

ElBaradei desembarcara de Viena poucas horas antes, e poucos egípcios creem que chegue a governar o Egito – diz que só veio para ajudar como negociador –, mas foi atacado com brutalidade, uma desgraça. O político egípcio mais conhecido e respeitado, Prêmio Nobel, trabalhou como principal inspetor da Agência Nuclear da ONU, ali, encharcado como gato de rua. Creio que, para Mubarak, ElBaradei não passaria de mais um criador de confusão, com sua “agenda oculta” – essa, precisamente, é a linguagem que o governo egípcio fala hoje.

Aí, começaram as granadas de gás lacrimogêneo. Alguns milhares delas, mas algo aconteceu, enquanto eu caminhava ao lado dos lança-granadas. Dos blocos de apartamentos e das ruas à volta, de todas as ruas e ruelas, centenas, depois de milhares de pessoas começaram a aparecer, todas andando em direção à Praça Tahrir. Era o movimento que a polícia queria impedir. Milhares de cidadãos em manifestação no coração da cidade do Cairo daria a impressão de que o governo já caíra. Já haviam cortado a internet – o que isolou o Egito, do resto do mundo – e todos os sinais de telefonia celular estavam mudos. Não fez diferença.

“Queremos o fim do regime”, gritavam as ruas. Talvez não tenha sido o mais memorável brado revolucionário, mas gritaram e gritaram e repetiram, até derrotar a chuva de granadas de gás lacrimogêneo. Vinham de todos os lados da cidade do Cairo, chegavam sem parar, jovens de classe média de Gazira, os pobres das favelas de Beaulak al-Daqrour, todos marchando pelas pontes sobre o Nilo, como um exército. Acho que sim, são um exército.

A chuva de granadas de gás continuava sobre eles. Tossiam e esfregavam os olhos e continuavam andando. Muitos cobriram a cabeça e a boca com casacos e camisetas, passando em fila pela frente de uma loja de sucos, onde o dono esguichava limonada diretamente na boca dos passantes. Suco de limão – antídoto contra os efeitos do gás lacrimogêneo – escorria pela calçada e descia pelo esgoto.

Foi no Cairo, claro, mas protestos idênticos aconteceram por todo o Egito, como em Suez, onde já há 13 egípcios mortos.

As manifestações não começaram só nas mesquitas, mas também nas igrejas coptas. “Sou cristão, mas antes sou egípcio” – disse-me um homem, Mina. “Quero que Mubarak se vá!” E foi quando apareceram os primeiros bataggi sem uniforme, abrindo caminho até a frente das fileiras da polícia uniformizada, para atacar os manifestantes. Estavam armados com cassetetes de metal – onde conseguiram? – e barras de ferro, e poderão ser julgados e condenados por agressão grave e assassinato, se o regime de Mubarak cair. São pervertidos. Vi um homem chicotear um jovem pelas costas, com um longo cabo amarelo. O rapaz gritou de dor. Por toda a cidade, os policiais uniformizados andam em pelotões, o sol refletindo no visor dos capacetes. A multidão já deveria ter sido intimidada, àquela altura, mas a polícia parecia feia, como pássaros encapuzados. E os manifestantes alcançaram a calçada da margem leste do Nilo.

Alguns turistas foram colhidos de surpresa no meio do espetáculo – vi três senhoras de meia idade, numa das pontes do Nilo (os hotéis, claro, não informaram os hóspedes sobre o que estava acontecendo –, mas a polícia decidiu que fecharia a extremidade leste do viaduto. Dividiram-se outra vez, para deixar passar as milícias não uniformizadas, e esses brutamontes atacaram a primeira fileira dos manifestantes. E foi quando choveu a maior quantidade de granadas de gás, centenas de granadas, em vários pontos, contra a multidão que andava sem parar por todas as grandes vias, em direção à cidade. Os olhos ardem, e tosse-se horrivelmente, até perder o fôlego. Alguns homens vomitavam nas soleiras das portas fechadas das lojas.

O fogo começou, ao que se sabe, noite passada, na sede do NDP, Partido Democrático Nacional, partido de Mubarak. O governo impôs um toque de recolher, e há relatos de tropas na cidade, sinal grave de que a polícia pode ter perdido o controle dos acontecimentos. Nos abrigamos no velho Café Riche, perto da Praça Telaat Harb, restaurante e bar minúsculo, com garçons vestidos de azul; e ali, tomando café, estava o grande escritor egípcio Ibrahim Abdul Meguid, bem ali à nossa frente. Foi como dar de cara com Tolstoi, almoçando em plena revolução russa. “Mubarak está sem reação!” – festejou ele. “É como se nada estivesse acontecendo. Mas vai, agora vai. O povo fará acontecer!” Sentamos, ainda tossindo e chorando por causa do gás. Foi desses instantes memoráveis, que acontecem mais em filmes que na vida real.

E havia um velho na calçada, cobrindo os olhos com a mão. Coronel da reserva Weaam Salim do exército do Egito, que saiu para a rua com todas as suas medalhas da guerra de 1967 contra Israel – que o Egito perdeu – e da guerra de 1973 que, para o coronel, o Egito venceu. “Estou deixando o piquete dos soldados veteranos” – disse-me ele. “Vou-me juntar aos manifestantes”. E o exército? Não se viram soldados do exército durante todo o dia. Os coronéis e brigadeiros mantêm-se em silêncio. Estarão à espera da lei marcial de Mubarak?

As multidões não obedeceram ao toque de recolher. Em Suez, blindados da polícia foram incendiados. Bem à frente do meu hotel, tentaram jogar no rio Nilo um blindado da polícia. Não consegui voltar à parte ocidental do Cairo pelas pontes. As granadas de gás ainda empesteiam as margens do Nilo. Mas um policial ficou com pena de nós – emoção absolutamente inexistente, devo dizer, ontem, entre os policiais – e nos guiou até a margem do rio. E ali estava uma velha lancha egípcia a motor, de levar turistas, com flores plásticas e proprietário disponível. Voltamos em grande estilo, bebendo Pepsi. Cruzamos com uma lancha amarela, super-rápida, da qual dois homens faziam sinais de vitória para a multidão sobre as pontes. Uma jovem, sentada na parte de trás da lancha, carregava uma imensa bandeira: a bandeira do Egito.

Foto acima: Khaled Desouki, AFP/Getty Images/The Daily Beast

Blog: Zumbaia Zumbi



Escrito por @Cesar_Ribeiro às 22h40
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GARAGEM 21 NO FESTIVAL DE CURITIBA

Então segue o que se segue: o grupo de teatro do qual sou diretor, chamado Garagem 21, foi convidado para apresentar Sessenta Minutos Para o Fim no Festival de Curitiba. A peça narra a história de dois atores condenados por um coelho a apresentar um espetáculo para um público que nunca aparece. As sessões serão nos dias 6 de abril (24h) e 7 de abril (21h), no Teatro HSBC. O convite partiu de Ivam Cabral, que está fazendo a curadoria do projeto Conexão Roosevelt, uma amostra  da produção teatral da Praça Roosevelt. Junto com a gente estarão figuras como Priscila Nicolielo, Mário Bortolotto, Marcelo Rubens Paiva, Lulu Pavarin e Francisco Carlos. Para quem estiver por lá, fica o convite. 



Escrito por @Cesar_Ribeiro às 03h26
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SLAVOJ ZIZEK NO AUTHORS@GOOGLE



Escrito por @Cesar_Ribeiro às 19h39
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SLAVOJ ZIZEK NA GLOBONEWS



Escrito por @Cesar_Ribeiro às 19h33
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JOE BONAMASSA - Burning Hell



Escrito por @Cesar_Ribeiro às 19h19
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A MELHOR MÚSICA DE TODOS OS TEMPOS DE HOJE



Escrito por @Cesar_Ribeiro às 17h00
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O ABECEDÁRIO DE DELEUZE - C DE CULTURA

O Abecedário de Deleuze é o nome pelo qual ficou conhecida a série de entrevistas concedidas pelo filósofo Gilles Deleuze a Claire Parnet entre 1988 e 1989, que foi produzida pelo documentarista Pierre-André Boutang. A série chega a quase oito horas de duração, em que Deleuze discorre sobre uma palavra-chave de cada letra do abecedário. Nascido na França em 1925 e falecido em 1995, Deleuze tem entre suas obras principais Nietzsche e a Filosofia, Mil Platôs e O Anti-Édipo - Capitalismo e Esquizofrenia. Além de ser muito associado a Félix Guattari (com quem escreveu suas obras mais conceituadas), ele é conhecido por sua relação com a literatura e o cinema e também por suas reflexões sobre desejo e seus significados. Para quem tiver a fim, na internet há vasto material de Deleuze, inclusive a transcrição integral em português do abecedário. Vou postar aqui, aos poucos, os vídeos da série de entrevistas. Abaixo seguem as partes 2 e 3 de A de Animal. A primeira parte está AQUI.







Escrito por @Cesar_Ribeiro às 15h40
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EDUARDO GALEANO - Dias e Noites de Amor e de Guerra - novo trecho

1

"Um famoso playboy latino-americano fracassa na cama de sua amante. 'Ontem à noite bebi demasiado', se desculpa na hora do café da manhã. Na segunda noite, a culpa é do cansaço. Na terceira noite troca de amante. Depois de uma semana vai consultar um médico. Tempos depois, começa a psicanálise. Experiências suprimidas vão surgindo, sessão após sessão, à superfície da consciência. E lembra:
1934. Guerra do Chaco. Seis soldados bolivianos perambulam pela puna buscando sua tropa. São os sobreviventes de um destacamento em derrota. Se arrastam pela estepe gelada sem ver alma ou comida. Este homem é um deles.
Uma tarde descobrem uma indiazinha que leva um rebanho de cabras. A perseguem, derrubam, violam. Entram nela um atrás do outro.
Chega a vez deste homem, que é o último. Ao se atirar sobre a índia, percebe que ela já não respira.
Os cinco soldados formam um círculo à sua volta.
Cravam os fuzis em suas costas.
E então, entre o horror e a morte, este homem escolhe o horror.

2

Coincide com mil e uma estórias de torturadores.
Quem tortura? Cinco sádicos, dez tarados, quinze casos clínicos? Os que torturam são bons pais de família. Os oficiais cumprem seu horário e depois assistem à televisão junto dos seus filhos. O que é eficaz é bom, ensina a máquina. A tortura física é eficaz: arranca informação, rompe consciências, difunde o medo. Nasce e se desenvolve uma cumplicidade de missa negra. Quem não torturar será torturado. A máquina não aceita inocentes nem testemunhas. Quem se nega? Quem pode conservar as mãos limpas? A pequena engrenagem vomita na primeira vez. Na segunda vez aperta os dentes. Na terceira se acostuma e cumpre com seu dever. Passa o tempo e a rodelinha da engrenagem fala a linguagem da máquina: capuz, plantão, pau-de-arara, submarino, cepo, cavalete. A máquina exige disciplina. Os mais dotados acabam encontrando um prazerzinho.

Se são enfermos os torturadores, o que dizer do sistema que os fez necessários?"


Escrito por @Cesar_Ribeiro às 15h15
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FELIZ ANIVERSÁRIO, SÃO PAULO



Escrito por @Cesar_Ribeiro às 20h59
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O MUNDO É UM CARANGUEJO - Cesar Ribeiro

Meus comparsas de prozac, agora eu vou abrir a dentadura e cuspir verborragia porque não tá fácil! Cada vez mais crescem mamonas assassinas e morrem beths balanço.

Outro dia vi um anão de jardim espancar uma bala juquinha em pleno Morumbi lotado, e o pior é que o cidadão nem sentiu remorso. Puxou a coleção de facas ginsu e, ao ver que o time do coração não marcara o gol e perdera a partida, meteu a lâmina na carcaça da figura. Saiu de lá com a bandeira no bolso, a cara de tragédia e um cauby na cachola, enquanto a torcida do time adversário pisoteava o cadáver na comemoração da vitória.

Semana passada – ou no ano passado, sei lá, memória é pra quem acha que as coisas valem a pena – vi na televisão que um pastor alemão trepou tanto com uma boneca inflável di menor que gozou purpurina em preto-e-branco e agora não tem grana pra cuidar da prole de pinguins de geladeira. Os papagaios de pirata logo denunciaram a fodeção e o cachorro teve de correr atrás de trampo e dos papéis pra assumir o casório, ou ia levar chumbo da família da ninfeta. A amarração foi transmitida em rede nacional, com luzes e flashes para todo lado e presença garantida dos imperadores de kichute, o que incluiu até os anões do orçamento: Dunga, Soneca, Zangado e companhia ilimitada.

Nos anais da igreja – opa, como assim? – corre à boca miúda que vão santificar um brasilguaio. O cara nasceu falando esperanto, aprendeu a tocar pagode com três semanas de vida, leu e entendeu a obra completa de paulo coelho antes dos cinco anos (o que, diga-se de passagem, não é lá muito difícil) e decifrou o mistério universal da invenção do homem e do estabelecimento de deus. O primeiro fascículo da obra com a revelação do sentido da existência sai na próxima semana encartado na revista caras, como parte da visita do carranca à aparecida. O único problema é que o mago não fala português. A obra é pra quem manja de grego futurista.

Anteontem fiquei sabendo que umas barbies tresloucadas compraram a coca-cola. Após uma longa negociação que durou vários anos e muitas propinas, conseguiram que a multinacional passasse o domínio da groselha para as bonecas. Elas já revelaram que vão abrir o código do produto ao mercado e registrá-lo (?) na creative commons. Mas ainda vão manter uma versão fechada da gororoba, rosa ao que tudo indica e com pitangas de farinha de fubá.

Ontem outra coisa chamou a atenção. O mercado de pulgas foi infestado por cães farejadores de maconha. Todos estavam doidões e correram à praça pública lacrimando a solidão ao verem as pulgas saírem da pelagem. Ficaram uma caralhada de tempo assistindo ao show de rumba das pulguinhas, aplaudindo nas horas erradas, fingindo apreciar o teatro malfeito... tudo pra forjar simpatias. Ao verem que as microscópicas não davam bola, sacaram as uzis e começaram a disparar pra todo lado. Na somatória geral, morreram cento e trinta e sete borboletas da microsoft, noventa e oito cantores de forró universitário, trinta e dois apresentadores de programas dominicais e mil duzentos e oitenta macacas de auditório. As pulgas escaparam ilesas e amanhã apresentam seu show em las vegas.

Sem conseguir entender esse forró universal, liguei meu som no último volume, pus os óculos escuros, abundei-me na poltrona, peguei uma bula de remédio e comecei a ler. E ainda dizem que a cultura é inútil.


Escrito por @Cesar_Ribeiro às 12h54
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INFECTED MUSHROOM - DEEPLY DISTURBED



Escrito por @Cesar_Ribeiro às 11h53
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SING A LULLABY AND FUCK A LITTLE MORE - Cesar Ribeiro

Imagens na cabeça. Ele traz um retrato desbotado de James Joyce no colo e uma flor morta na mão direita. Perambula em uma tarde escaldante pelos parques. Procura um banco para sentar. Não um banco qualquer jogado nas sombras. Mas o banco em que ela estará. Ouviu falar do meteorito que transformou gnomos em chupa-cabras. Não concordou com a absolvição do Renan. Acreditou que todos seriam cassados. Viu o rei de Espanha dançar rumba na Casa Branca. Sabia que o poppapa compraria o Prada vermelho. Você é quase um gênio, balbuciou numa noite de chuva um amigo chapado. Ficou triste pacas. Por que quase? Sou um gênio. Só que não entendeu quando viu na Alameda das Solidões um casal de ninfetas se beijando. Contrassenso. A palavra grita sempre. Ele sabe. Manchetes nos jornais. Locutores anunciam a promoção de vibradores top de linha nas Casas Bahia. Free sex for all. Um músico sexagenário toca uma nota numa flauta nova. O som é chato. Coisa de índio alemão. Desses que vendem bijuterias no Iguatemi. Ela chega com seu vestido branco. Cena de Sonhos de Kurosawa. Em lugar de neve o suor escorrendo pelo rosto. Ele quer entregar o retrato do Joyce, mas ela prefere a flor morta. Sempre achei bonita a morte, balbucia em grego futurista. Um gato azul passa brigando com as pulgas. Nacos de sangue tingem o vestido de vermelho. Sorri. Cheira a flor made in China enquanto atravessa uma lâmina fria nos pulsos. Mais sangue no antigo vestido branco. Eles olham a tarde que começa a ir embora e pensam que a lua será bela hoje. As bombas, meu bem, elas já estão armadas e agora é só apertar o botão. Sing a lullaby and fuck a little more. Um pedaço de ombro aparece. A outra alça do vestido também cai. Agora eles estão nus. O quadro é mais ou menos o seguinte: dois pelados no parque, sangue caindo dos pulsos, uma flor morta na boca da mulher e um retrato de Joyce no meio-fio. Cavalos passam sorridentes, conduzindo turistas neanderthais. Chicotadas. Camelôs perguntam se o casal não quer camisinha. Pague uma leve três. Havia uma prece jogada na esquina conduzindo os fiéis a um paraíso de fio de sutura. Tudo que se feria tinha cura. Buraco fundo na alma era resolvido com aguardente de gema de ovo. A palavra estava pregada na estante. Só o grande membro salva, só o grande membro cura. Um pau de quinze metros era o altar e o perdão vinha com quinze penetrações duplas depois do almoço e dezessete masturbações após o jantar. Engolir o esperma não faz bem, minha querida. Nascem filhos pela boca, o que, pensa comigo, deve ser muito doloroso. Depois, com essa sua cárie no quadragésimo primeiro, é melhor cuspir. As câmeras registravam tudo para o programa dominical. Mamutes deitados na sala viam o casal trepando enquanto o sangue caía no banco do parque. A foda é fantástica. A mulher era contorcionista. O cara, um marombado de academia grã-fina. Puta audiência! Que Boca versus São Paulo o quê?! Saca só o Ibope. Ao mesmo tempo em que dava uma estocada funda na vagina, o dedo indicador entrava no cu e ia abrindo caminho. Molha o dedo com cuspe para não machucar. O movimento se repetia. Repetia. Repetia. Repetia. Repetia. Que porra é essa?, grita um produtor vendo a brochada do mamute que desfalece. As luzes se apagam, a cidade escura. Em meio a gritos, palavrões e drops Kids hortelã, os mestres da mídia começam a desarmar seus cabos luzes microfones. País de merda, país de merda! Liguem para o presidente! Xinguem o cardeal. Chamem a SuperVulvaAmarela. Carros fechados acendem os faróis para sair do parque. The show is over. Disparam em alta velocidade sem reparar pequenos flashes em um casal nu e morto no banco do parque. Amanhã o lixeiro passará e recolherá a sujeira. That’s all, folks!


Escrito por @Cesar_Ribeiro às 18h10
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O ABECEDÁRIO DE DELEUZE - B DE BEBIDA

O Abecedário de Deleuze é o nome pelo qual ficou conhecida a série de entrevistas concedidas pelo filósofo Gilles Deleuze a Claire Parnet entre 1988 e 1989, que foi produzida pelo documentarista Pierre-André Boutang. A série chega a quase oito horas de duração, em que Deleuze discorre sobre uma palavra-chave de cada letra do abecedário. Nascido na França em 1925 e falecido em 1995, Deleuze tem entre suas obras principais Nietzsche e a Filosofia, Mil Platôs e O Anti-Édipo - Capitalismo e Esquizofrenia. Além de ser muito associado a Félix Guattari (com quem escreveu suas obras mais conceituadas), ele é conhecido por sua relação com a literatura e o cinema e também por suas reflexões sobre desejo e seus significados. Para quem tiver a fim, na internet há vasto material de Deleuze, inclusive a transcrição integral em português do abecedário. Vou postar aqui, aos poucos, os vídeos da série de entrevistas. Abaixo seguem as partes 2 e 3 de A de Animal. A primeira parte está AQUI.





Escrito por @Cesar_Ribeiro às 17h38
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EDUARDO GALEANO - Dias e Noites de Amor e de Guerra - outro trecho

"Não faz muito tempo telefonou para ele um fulano de voz imperiosa. Disse que tinha urgência em vê-lo. No começo Vicente não o reconheceu. Depois, lembrou. Como advogado, Vicente tinha cuidado dele uns anos atrás por um problema de cheques sem fundo. Não tinha cobrado nada.
Vicente disse que andava enlouquecido de trabalho e que não tinha um minuto livre e que...
Se encontraram em um café. O sujeito insistiu que tinham de beber uísque estrangeiro. Vicente disse que não queria e que a essa hora da manhã...
Beberam uísque estrangeiro.
Então Vicente ficou sabendo que o fulano era oficial da polícia.
- Estou em um comando de operações especiais – disse ele – e recebi ordem de te matar.
Disse que convinha desaparecer por uma semana. Na semana seguinte receberiam outras listas, com outros nomes. Todas as semanas as listas mudavam.
- Não estou garantindo sua vida nem nada. Simplesmente digo que se esconda por uma semana. Temos muito que fazer. Você não é importante.
Vicente disse que agradecia e que não sabia como fazer para...
- Agora estamos em paz – disse o outro. – Já não te devo nada. Você foi legal comigo há dois anos. Estamos quites. Se tornam a me dar a ordem e eu te encontro, te mato.
Chamou o garçom. Se levantou sem esperar o troco.
Não te dou a mão – disse – nem quero que você me dê a sua.


Escrito por @Cesar_Ribeiro às 14h28
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OSTAD JALIL SHAHNAZ TOCANDO TAR



Escrito por @Cesar_Ribeiro às 13h54
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CLOUD GATE DANCE THEATRE - CURSIVE II

Cloud Gate Dance Theatre é uma companhia de dança-teatro fundada em 1973, em Taiwan, por Lin Hwai-min. Atualmente, é considerada uma das mais importantes da dança contemporânea, juntando elementos da tradição milenar a teatro, ópera chinesa, meditação, butô, artes marciais, balé e, claro, dança contemporânea. Os caras são praticamente sócios do Teatro Alfa, tendo se apresentado nele com Whisper of Flowers (2010), Wild Cursive (2007), Moon Water (2004) e Songs of the Wanderers (2003) – isso se não deixei alguma de fora. O vídeo abaixo é a parte final de Cursive II, que está na íntegra no Youtube. A trilha é de John Cage. Enjoy!



Escrito por @Cesar_Ribeiro às 00h28
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ALLEN GINSBERG - Sobre a Obra de Burroughs

 

"O método deve ser a mais pura carne
e nada de molho simbólico,
verdadeiras visões & verdadeiras prisões
assim como vistas vez por outra.

Prisões e visões mostradas
com raros relatos crus
correspondendo exatamente àqueles
de Alcatraz e Rose.

Um lanche nu nos é natural,
comemos sanduíches de realidade.
Porém alegorias não passam de alface.
Não escondam a loucura."


Escrito por @Cesar_Ribeiro às 13h53
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A MELHOR MÚSICA DE TODOS OS TEMPOS DE HOJE



Escrito por @Cesar_Ribeiro às 11h14
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HOMOFOBIA EM PRETO E BRANCO - parte 1

FONTE: REVISTA FÓRUM

Por Glauco Faria e Thalita Pires

No último 14 de novembro, quatro menores de idade e um jovem de 19 anos agrediram fisicamente, utilizando até lâmpadas fluorescentes, três pessoas que caminhavam na avenida Paulista, em São Paulo. No mesmo dia, um estudante foi xingado e baleado por um militar do Forte de Copacabana, no Rio de Janeiro, logo depois do fim da Parada Gay carioca. Ainda que as imagens da agressão paulistana tenham chocado, isso não evitou que, 20 dias depois, outros dois jovens fossem vítimas de nova agressão, na mesma avenida. E, no dia seguinte, que imagens de um circuito de segurança mostrassem outro caso na mesma região.

É provável que quando você estiver lendo esta matéria novos casos de violência homofóbica terão ocorrido. Casos notórios como os descritos acima trouxeram à tona a preocupação com a segurança e a proteção da vida de homossexuais no país, embora boa parte da sociedade ainda queira evitar a questão, banalizada e invisível durante a maior parte do tempo. Agressões que têm a orientação sexual como motivação são constantes no Brasil. Não existem dados oficiais a respeito, mas levantamento realizado pela Associação Brasileira de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais contabiliza 198 homicídios com motivações homofóbicas em 2009. Em 2010, esse número já chegaria a 205. Segundo o antropólogo Luiz Mott (Universidade Federal da Bahia/UFBA), até 15 de dezembro, o número atingia a marca de 235 mortes, o que colocaria o Brasil na primeira posição entre os países que realizam algum tipo de levantamento.

A evolução da violência é preocupante, e a subnotificação dos casos indica que esse índice pode ser muito maior. Nem sempre as vítimas denunciam os crimes dos quais são vítimas, muitas vezes pelo fato de os algozes serem pessoas conhecidas. “A maioria das vítimas tem algum tipo de relação ou vínculo com o agressor, sendo um familiar, amigo, vizinho ou colega de trabalho. E esse agressor tem uma nítida impressão de impunidade, mesmo sabendo que está cometendo um crime”, conta Franco Reinaudo, da Coordenadoria de Assuntos de Diversidade Sexual da prefeitura de São Paulo.

Reinaudo se refere ao Mapa da Homofobia, elaborado pela administração paulistana com base em um serviço de denúncias, que ajuda a traçar um mapa das agressões homofóbicas na cidade. Alguns dados merecem destaque e podem ter pontos em comum com outros municípios brasileiros. “Pode-se constatar a intolerância dentro do ambiente doméstico, já que 22% das agressões físicas acontecem dentro de casa. Quando a vítima nos procura por conta da homofobia familiar, é porque foram expulsos da residência em função de o pai ou a família descobrirem que são homossexuais”, relata. “Existem alguns casos emblemáticos, como o de um pai que martelou a mão do menino por conta da sua homossexualidade, e a comunidade ficou a favor disso. Outro caso foi de uma mãe que pediu para o companheiro dela estuprar a filha quando descobriu que era lésbica, para que ela `virasse mulher`.”

Conforme o mapa da homofobia paulistano, das mil denúncias de agressões, 50% aconteceram no centro expandido, que engloba a avenida Paulista. “A gente desconfiava que o centro ia aparecer por dois motivos: lá, é a área onde se tem o maior número de estabelecimentos da comunidade, e sabemos também que existe uma quantidade expressiva de homossexuais e travestis que moram nessa região”, explica Reinaudo. “Em geral, uma outra informação que chega no mapa é que essa violência, quando acontece em espaço público, é bastante covarde, porque os agressores estão em maior número ou pegam a pessoa de surpresa. É uma agressão gratuita, a pessoa não tem a chance de responder. Eles não atacam onde existe alta concentração, a agressão é feita no caminho em que as pessoas estão indo ou vindo da balada, são quase emboscadas no entorno para pegar a pessoa desprevenida”.

As razões da violência e a internet

Mas por que teria havido esse recrudescimento da violência homofóbica? Para a cantora, compositora e ativista Vange Leonel, um dos motivos estaria ligado à visibilidade. “Homofobia sempre existiu, mas a partir do momento em que os movimentos gays passaram a sair para a rua, estamos nos expondo cada vez mais, e é natural, não correto, que haja uma reação maior”, afirma. “Éramos mais discretos, ficávamos em guetos específicos de gays e lésbicas, não estávamos na mídia, na TV etc. Esse é um aspecto deste recrudescimento. Uma reação a uma ação”.

Outro fator que pode ter contribuído para essa onda foi o nível moralista da campanha presidencial. “Nós já temos um caldo cultural homofóbico e tivemos, nesse período eleitoral, principalmente no segundo turno, os fundamentalistas saindo do armário, tanto os religiosos como muita gente que estava controlando sua discriminação, seus preconceitos, e colocaram pra fora. Passaram a aparecer manifestações contra os LGBTs, contra os nordestinos, e isso agora está passando para as vias de fato”, argumenta Toni Reis, presidente da Associação Brasileira de Gays, Lésbicas, Bissexuais, Travestis e Transexuais (ALGBT). “A maneira como foi colocado o debate foi muito triste, e se você buscar qualquer palavra se referindo à homossexualidade na internet, existem muitos sites incentivando o preconceito e até mesmo a violência”, destaca Reis.

A internet é, de fato, o terreno mais fértil para o florescimento da intolerância homofóbica. O caráter anônimo da rede, ainda que ilusório, dá a agressores a confiança de que não serão descobertos ao destilarem seus preconceitos. As denúncias de homofobia à SaferNet, ONG que recebe denúncias de abuso no conteúdo da rede, correspondiam a 4% do total de reclamações no primeiro semestre de 2006. No primeiro semestre de 2010, a porcentagem passou para 10%, com um total de denúncias referentes à homofobia que chegou a 3.090 casos. Entre julho e novembro de 2010, esse número já foi ultrapassado e atingiu 3.217 notificações.

Comunidades homofóbicas, com nome como “Odeio Gays” e “Matem os travecos” fazem parte da história do Orkut. Hoje, é quase impossível acessar uma página de conteúdo tão agressivo, já que, assim que descobertas, elas são apagadas imediatamente. Mas grupos como “Odeio cantadas de gays” e outros que associam times de futebol com homossexualidade são relativamente comuns. Sites de religiosos que atacam a homossexualidade também existem aos montes. Em um deles, de autoria de Julio Severo, é possível encontrar artigos relacionando homossexualidade e pedofilia e um link para uma página que promete ajudar quem quer “sair do homossexualismo”.

Uma das ferramentas mais eficazes para divulgar a homofobia, atualmente, é pelo Twitter. As mensagens instantâneas têm menos moderação que as comunidades do Orkut ou páginas normais e, por isso, muitas vezes são mais agressivas. A polêmica envolvendo os termos #HomofobiaNao e #Homofobia Sim, no site, exemplifica bem o tipo de preconceito que pode ser propagado pela rede social. Logo após as agressões aos rapazes na avenida Paulista, em novembro, uma campanha contra a homofobia chegou ao Trending Topic (assuntos mais comentados) no Twitter. No dia 17 de novembro, um perfil apócrifo chamado @HomofobiaSim foi criado para defender as agressões. Sua descrição na rede afirmava que são os gays “os responsáveis pela propagação de DSTs no mundo”. Em 15 horas, o perfil ganhou mais de 15 mil seguidores e divulgou diversas mensagens preconceituosas, colocando o termo #HomofobiaSim como destaque no site. Após ser cogitada a possibilidade de processos judiciais, as mensagens foram apagadas e o perfil deixou de ser atualizado.

Outro caso é a ameaça que a transexual e ativista dos direitos da comunidade LGBT Luiza Stern sofreu no Twitter em 12 de dezembro. Sem nenhuma troca anterior de mensagens, o perfil anônimo @psycl0n tuitou uma mensagem em que ameaçava “descarregar uma arma” nela. Imediatamente, Luisa denunciou o perfil para a SaferNet, para o Ministério Público Federal e para a Polícia Federal. Ela deve ainda entrar com uma denúncia na Delegacia para Crimes na Internet do Rio Grande do Sul. “Apesar de não poder provar, acredito que o autor dessas ameaças seja uma pessoa que produz esse tipo de conteúdo há muito tempo no Orkut, agredindo integrantes da comunidade ‘Homofobia já era’”, diz Stern. “Até agora, tudo tinha sido agressão verbal, mas ameaça à vida é a primeira vez que recebo.”

A desconfiança de Luiza baseia-se no fato de que, após as denúncias feitas por ela, o agressor postou diversas mensagens sobre o tema. Em uma delas, diz que Luisa o denuncia para o MP e a PF desde os tempos do Orkut, mas que nunca nada havia acontecido. “O anonimato encoraja esse tipo de atitude, mas isso é inaceitável. Quem sabe essa pessoa, que está escondida atrás do computador, não resolve colocar sua loucura em prática? Quero que ele vá para onde já deveria estar, que é a cadeia ou uma instituição mental, onde não possa ameaçar ninguém.”

Em todos esses casos, entretanto, a reação ao preconceito ganhou força, e a própria internet foi um instrumento para articular manifestações contrárias à homofobia. “O meio é um canal para o uso do discurso da moral religiosa, mas o movimento LGBT tem usado a internet para combater o preconceito e se organizar”, afirma Roberto Gonçale, integrante da Comissão de Direitos Humanos da Organização dos Advogados do Brasil – Rio de Janeiro (OAB-RJ). “É um espaço tanto de confronto como de colaboração, e deve ser aproveitado da melhor forma possível”, acredita. Prova dessa força foi o “Beijaço contra a homofobia”, organizado virtualmente por conta de um casal homossexual ter sido discriminado por um funcionário de uma doceria Ofner. Em novembro, o grupo já havia participado de um protesto de 500 pessoas contra o "Manifesto Presbiteriano sobre a Lei da Homofobia", assinado pelo chanceler Augustus Nicodemus Gomes Lopes, da Universidade Presbiteriana Mackenzie.

A lei e a mídia

“A gente tem percebido que a homofobia sempre existiu. Na Idade Média, éramos queimados na fogueira; depois, passamos a ser tratados como criminosos e, até o dia 17 de maio de 1990, éramos tratados como doentes”, afirma Toni Reis, referindo-se à data em que a Assembleia Geral da Organização Mundial da Saúde (OMS) retirou o código 302.0, relativo à homossexualidade, da Classificação Internacional de Doenças, e reiterou que “a homossexualidade não constitui doença, nem distúrbio e nem perversão”. Durante muito tempo, homossexuais foram perseguidos, nos mais diversos países, pela Igreja, pelo aparato judicial e pela própria ciência. Assim, mesmo salvaguardas necessárias, como a aprovação do Projeto de lei 122/06, que está em tramitação na Câmara do Deputados, sofrem todo tipo de resistência.

O texto do projeto, de autoria da deputada federal Iara Bernardi (PT-SP), equipara crimes com motivações homofóbicas àqueles motivados, por exemplo, pelo racismo. “A aprovação da lei transferiria o preconceito para a esfera penal”, explica Roberto Gonçale. Para ele, a falta de uma lei específica faz com que grupos homofóbicos se sintam no direito de discriminar. “A lei penal é restritiva, então, ainda que haja um entendimento de que a agressão aconteceu por homofobia, a Justiça não pode punir”, afirma. A advogada Sylvia Maria Mendonça do Amaral também aponta para a insuficiência da legislação atual. “Se acontece uma agressão verbal, um ato homofóbico, a vítima vai à delegacia e não tem um crime tipificado, abre-se somente um boletim de injúria.”

Sylvia atenta também para outro problema: a dificuldade que as vítimas enfrentam para denunciar os crimes, já que podem ser vítimas de discriminação também nas delegacias, em função do despreparo da polícia para tratar com o tema. “Vejo as pessoas com muito medo de procurar a delegacia e serem discriminadas. Já acompanhei clientes meus para fazer boletins de ocorrência. Quando há um advogado presente, essa eventual discriminação não é demonstrada, mas muitas pessoas que conheço, que foram sozinhas à delegacia, sofreram”, conta.

Da mesma forma, o deputado federal Paulo Pimenta (PT-RS) compara a importância da aprovação do PLC 122 à criminalização do racismo. “Trata-se de uma disputa cultural. Claro que o Estatuto racial não resolveu a questão do preconceito, mas o inibe. E, daqui a alguns anos, as pessoas vão ter vergonha de dizer que faziam piadas com negros; o mesmo pode acontecer, daqui a alguns anos, em relação às piadas homofóbicas”, defende. Ele também observa o papel desempenhado pela mídia na perpetuação do preconceito. “A Globo, ao mesmo tempo que trata de questões importantes em novelas, reitera estereótipos em seus programas de humor. Imagine um jovem que queria conversar sobre sua homossexualidade com a família no sábado à noite enquanto é exibido um programa como um Zorra Total, que retrata estereótipos daquilo que é mais degradante.”

Apesar de reconhecer que os homossexuais conseguiram mais visibilidade na mídia em geral a partir dos anos 1990 – algo positivo, já que uma das bases do preconceito é justamente a desinformação e a falta de contato –, Vange Leonel também faz ressalvas ao tratamento midiático. “Tem que perder o medo de mostrar o beijo gay, cansam de mostrar em filmes, em enlatados. Não sei por que não se mostra em novela”, questiona. “E tem uma coisa perversa, que é usar esse suspense se vai ou não ter o beijo para ganhar a audiência”.


Escrito por @Cesar_Ribeiro às 10h38
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HOMOFOBIA EM PRETO E BRANCO - parte 2

O papel das igrejas

Os setores conservadores, com efeito, não parecem dispostos a perder o “privilégio” de poder discriminar homossexuais. O PL 122/06 é atacado por muitas igrejas e não raro textos bíblicos usados em cultos e sermões de pastores e padres pregam contra a homossexualidade. Não à toa. Daniel Borrillo, em seu livro Homofobia – História e Crítica de um Preconceito, afirma que “os elementos precursores de uma hostilidade contra lésbicas e gays emanam da tradição judaico-cristã”. Ainda de acordo com o autor, “o cristianismo, ao acentuar a hostilidade da Lei judaica, começou por situar os atos homossexuais – e, em seguida, as pessoas que os cometem – não só fora da Salvação, mas também, e sobretudo, à margem da Natureza. O cristianismo triunfante transformará essa exclusão da natureza no elemento precursor e capital da ideologia homofóbica”, em um processo de desumanização e inferiorização dos homossexuais.

Assim, boa parte da resistência ao reconhecimento de direitos aos homossexuais vem dos religiosos. No caso específico da lei que criminaliza a homofobia, muitos deles vêem nela um equivalente à “lei da mordaça”. De fato, é possível que a aprovação do projeto obrigue os pregadores mais exaltados a segurar a língua na hora de “explicar” seus argumentos contra a homossexualidade. O texto do projeto prevê que será crime “praticar, induzir ou incitar a discriminação ou preconceito de raça [...] gênero, sexo, orientação sexual e identidade de gênero” e que é proibida “a prática de qualquer tipo de ação violenta, constrangedora, intimidatória ou vexatória, de ordem moral, ética, filosófica ou psicológica”.

É discutível, no entanto, se isso tem alguma coisa a ver com religião ou se atinge apenas os discursos que extrapolam o escopo religioso. “Não há problema em discordar da conduta homossexual e explicar isso aos fiéis”, afirma Roberto Gonçale. O problema seria o estímulo à intolerância. “As igrejas conservadoras usam o discurso para incitar a discordância e acabam servindo como justificativa para a violência. Nesse ponto, não é mais liberdade de expressão”, acredita.

Essa também é a opinião dos pastores Fábio Inácio de Souza e Marcos Gladstone, fundadores da Igreja Cristã Contemporânea, denominação evangélica inclusiva, criada em 2006 no Rio de Janeiro. Homossexuais, os dois fundaram a Igreja por não se sentirem representados nas instituições tradicionais. “A igreja é a instituição que mais dá munição para que o preconceito exista. Na Parada Gay do Rio de Janeiro, havia vários cartazes de igrejas conservadoras, dizendo que gays vão para o inferno e que Deus abomina os gays”, conta Gladstone.

A Contemporânea divide seus argumentos a favor da tolerância em duas categorias. A primeira, é a diferença dos costumes de agora com os de milênios atrás. “A Bíblia de fato, em Levítico, proíbe a homossexualidade, mas o mesmo livro prega que não podemos comer mariscos, cortar o cabelo e que as mulheres não se aproximem de ninguém durante o período menstrual”, diz Souza. “Então, por que essa indignação seletiva contra a homossexualidade? Os costumes mudaram em muitos aspectos, não faz sentido continuar condenando sob esse argumento”, sustenta. A outra linha de argumentação dos pastores tem a ver com as traduções e interpretações que o livro sagrado do cristianismo ganhou ao longo dos anos. “Hoje, há bíblias que usam a palavra homossexual, e ainda discriminam em ativos e passivos. Mas essa palavra é moderna, não poderia estar nas escrituras. Nesse caso, a palavra original era “perversão” e não tinha nada a ver com orientação sexual”, explica Gladstone.

O papel das igrejas na opressão de homossexuais vai além do discurso moral que serve de argumento a agressores. A própria igreja agride fiéis homossexuais, em sua maior parte jovens do sexo masculino, quando tenta “convertê-los” ou “curá-los”. Antes de fundar a Contemporânea, o pastor Fábio de Souza pertencia à Igreja Universal do Reino de Deus, onde também era pastor. Ele passou por diversos “centros de recuperação”, que consistem em palestras de “convertidos”, que tentam convencer os homossexuais de que é possível mudar de orientação sexual. “Quando estava na Universal, fazia diversas ‘libertações’, mas nunca me ‘libertava’. Eu pedia a Jesus, fazia corrente, mas óbvio que nada mudou”, conta. “Só que isso é uma violência. Há casos, aqui na igreja, de pessoas que tentaram o suicídio por não conseguirem mudar. Há outros que chegam a um casamento heterossexual, mas que não conseguem sustentar a situação por muito tempo”, revela.

A cura de homossexuais não é pregada apenas nas igrejas. Há psicólogos que também afirmam fazer terapia para mudar a orientação sexual. O caso mais famoso é de Rosângela Alves Justino, psicóloga e também integrante da Igreja Batista. Em 2009, ela foi julgada pelo Conselho Federal de Psicologia por oferecer esse tipo de terapia. Ela chegou a receber uma punição branda – censura pública –, mas pôde continuar praticando a profissão. No ambiente das igrejas, há mais profissionais com a mesma conduta. “Os fieis são encaminhados para psicólogos se os centros de recuperação não funcionam”, diz Souza.

Apesar de seguir praticamente os mesmos preceitos morais das igrejas tradicionais – Gladstone faz questão de frisar que pregam contra a promiscuidade e o sexo pelo sexo –, a Contemporânea sofre ataques. “Durante os cultos, pessoas de outras igrejas nos rotulam e julgam”, afirma Gladstone. Não são os únicos. Em Fortaleza, outra igreja inclusiva, a Comunidade Cristã Nova Esperança, foi alvo, em dezembro, de ataques e pichações com os dizeres “Morte aos gays e sapatão (sic)” e “Homofobia não é crime”. Em novembro, a igreja teria também recebido uma ameaça de ser incendiada caso não mudasse do local.

O combate à homofobia

Embora provoquem choque casos como o da agressão aos jovens da Paulista, o fato é que a violência cotidiana contra homossexuais só poderá ser superada com uma mudança cultural, que não vai se dar da noite para o dia. Por conta disso, muitos entendem como fundamental trabalhar a questão dentro da sala de aula. “O mais importante de tudo seria tratar do tema nas escolas, tem que se trabalhar uma formação também pensando na igualdade em relação à orientação sexual. Se o adolescente é criado num ambiente homofóbico, na escola ele teria possibilidade de ter outra visão”, acredita Sylvia do Amaral.

A preocupação com os mais jovens não se restringe apenas a preparar futuras gerações que respeitem a pluralidade sexual, mas se trata também de preparar um ambiente melhor para estudantes vítimas de preconceito e que não são aceitos por seus familiares. Caitlin Ryan, professora da Universidade de San Francisco, realizou uma pesquisa, divulgada em maio de 2010, em que entrevistou 224 jovens gays e parentes para avaliar o impacto da aceitação dos pais na vida destes jovens. O levantamento apontou que homossexuais rejeitados por suas famílias têm oito vezes mais chances de tentar o suicídio do que aqueles que foram aceitos; têm seis vezes mais chances de desenvolverem depressão e três vezes mais possibilidade de praticarem sexo sem proteção.

Outra pesquisa, divulgada em 2009 pela Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade (FEA) da Universidade de São Paulo (USP), mostrou que, nas escolas públicas brasileiras, 87% da comunidade (alunos, pais, professores e funcionários) têm algum grau de preconceito contra homossexuais. Isso e os possíveis prejuízos à saúde e ao bem-estar de milhões de pessoas que fazem parte do ambiente escolar justificaria a preocupação e a necessidade de se tratar o tema da homofobia na rede de ensino. No entanto, isso também é um tabu.

Mesmo sem ser lançado oficialmente, um conjunto de material didático destinado a combater a homofobia na rede pública de ensino já sofre ataques raivosos e, claro, de cunho homofóbico. O kit, fruto de um convênio firmado entre o Ministério da Educação (MEC), o Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE) e a ONG Comunicação em Sexualidade (Ecos), trata do tema voltado para o universo de adolescentes homossexuais. O deputado federal Jair Bolsonaro (PP-RJ), que pregou no plenário da Câmara que os pais deveriam “dar umas palmadas” nos seus filhos caso percebessem o “desvio” da homossexualidade, voltou à carga contra o material (mesmo sem conhecê-lo), dizendo que o kit “estimula o homossexualismo nas escolas de 1º grau”.

Na verdade, diferentemente do que afirma Bolsonaro, o material será distribuído no ensino médio, voltado para adolescentes, e não para o ensino fundamental. “Esse é outro exemplo de desinformação, é um kit com cinco vídeos que inclui manual para os professores, um material didático que foi discutido três anos com uma equipe multi-disciplinar e com especialistas em sexualidade”, explica Toni Reis. “Além disso, foi testado com profissionais da educação. As pessoas estão distorcendo, afirmando que nós queremos incentivar a homossexualidade, mas queremos incentivar a cidadania e o respeito à dignidade humana.”

Além da questão da homofobia sendo tratada nas escolas, o presidente da ALGBT indica outros passos importantes para a conquista da plena cidadania para os homossexuais. “Temos na ALGBT 237 grupos e nos nossos congressos deliberamos e queremos no Legislativo a aprovação do PLC 122, além da questão da união estável e do nome social das travestis e dos homossexuais. No Executivo, nossa meta é a execução do Plano Nacional LGBT, composto por 166 ações e que foi fruto da Conferência Nacional LGBT. No Judiciário, batalhamos pela aprovação das duas Ações Diretas de Inconstitucionalidade (ADIs) que têm para ser discutidas no Supremo Tribunal Federal: uma, sobre a união estável e outra, sobre o nome social das trans”, resume. Ainda há um longo caminho a percorrer para que os homossexuais tenham direitos iguais ao do resto da sociedade. Mas não discutir o tema é negar os próprios valores da democracia.

As raízes e a relação com outros preconceitos

De acordo com Daniel Borrillo, no livro Homofobia – História e crítica de um preconceito, o termo, utilizado pela primeira vez nos EUA em 1971, apareceu nos dicionários de língua francesa no fim da década de 1990 e, “da mesma forma que a xenofobia, o racismo ou o antissemitismo, a homofobia é uma manifestação arbitrária que consiste em designar o outro como contrário, inferior ou anormal; por sua diferença irredutível, ele é posicionado a distância, fora do universo comum dos humanos”.

Para Borrillo, a homofobia funciona como guardiã de um dispositivo de reprodução da ordem social, vigiando não só as fronteiras sexuais (hétero/homo) como também de gênero (masculino/feminino). Assim, o sexismo e a homofobia são tratados como duas faces do mesmo fenômeno social. “Eis porque os homossexuais deixaram de ser as únicas vítimas da violência homofóbica, que acaba visando, igualmente, todos aqueles que não aderem à ordem clássica dos gêneros: travestis, transexuais, bissexuais, mulheres heterossexuais dotadas de forte personalidade, homens heterossexuais delicados ou que manifestam grande sensibilidade...”.

Nesse sentido, é preciso questionar a homofobia não apenas na violência de seus atos e comportamentos, mas também quanto às suas construções ideológicas, incrustadas no modo de vida da sociedade. Borrillo diferencia a homofobia afetiva ou psicológica, de cunho individual e que se traduz em rejeição aos homossexuais, da homofobia cognitiva ou social, fundada na supremacia heterossexual, tendo como objetivo simplesmente perpetuar a diferença homo/hétero. “Neste último registro, ninguém rejeita os homossexuais; entretanto, ninguém fica chocado pelo fato de que eles não usufruam dos mesmos direitos reconhecidos por heterossexuais.” Ambas as formas de homofobia são autônomas. “Assim, é possível não experimentar qualquer sentimento de rejeição em relação a homossexuais (e até mesmo ter simpatia por eles/elas) e, no entanto, considerar que eles/elas não merecem ser tratados/as de maneira igualitária. O mesmo ocorre com a misoginia: quantos homens desejam e amam mulheres sem que essa atitude os impeça de tratá-las como objetos?”

Para Vange Leonel, “a homofobia tem duas raízes importantíssimas: uma, é a condenação religiosa e a outra, é o machismo. O fundo machista é porque o gay não tem virilidade, enquanto a lésbica rouba a virilidade do homem, mas as religiões condenando a homossexualidade é uma sacanagem, porque se está condenado como pecado um traço biológico”, aponta. “É como condenar alguém que tem olhos verdes, dizendo que isso é pecado. Não escolhi ser homossexual. Eles julgam como desvio da conduta moral, esse é um grande nó para se desatar.”

Mas uma questão que torna a discriminação e o preconceito dirigidos a homossexuais particularmente mais cruéis se relaciona ao fato de que são visados, sobretudo, indivíduos isolados, e não grupos já constituídos como minorias. “O homossexual sofre sozinho o ostracismo da sua homossexualidade, sem qualquer apoio das pessoas à sua volta e, muitas vezes, em um ambiente familiar também hostil. Ele é mais facilmente vítima de uma aversão a si mesmo e de uma violência interiorizada, suscetíveis de levá-lo ao suicídio”, afirma Borrillo em seu livro.


Escrito por @Cesar_Ribeiro às 10h37
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PINA BAUSCH - Orfeu e Eurídice

Pina Bausch é um dos nomes mais importantes das artes contemporâneas. Nascida na Alemanha em 1940 e falecida em 2009, ela foi diretora da companhia Tanztheater Wuppertal, com a qual revolucionou a linguagem por meio de sua maneira de mesclar teatro e dança contemporânea, em que estão presentes as ações paralelas, as repetições de movimento e o uso de elementos tradicionais subvertidos. Em 1975, ela criou com sua companhia a coreografia de Orfeu e Eurídice, uma dança-ópera a partir da obra de Gluck. Em 2008, o Ópera de Paris reencenou essa coreografia com seus bailarinos, sob direção cênica de Gérard Mortier. É esse vídeo que reproduzo abaixo, em um trecho que destaca o trabalho do coro – além da sempre fodástica estética.



Escrito por @Cesar_Ribeiro às 21h10
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O ABECEDÁRIO DE DELEUZE - A DE ANIMAL - Partes 2 e 3

O Abecedário de Deleuze é o nome pelo qual ficou conhecida a série de entrevistas concedidas pelo filósofo Gilles Deleuze a Claire Parnet entre 1988 e 1989, que foi produzida pelo documentarista Pierre-André Boutang. A série chega a quase oito horas de duração, em que Deleuze discorre sobre uma palavra-chave de cada letra do abecedário. Nascido na França em 1925 e falecido em 1995, Deleuze tem entre suas obras principais Nietzsche e a Filosofia, Mil Platôs e O Anti-Édipo - Capitalismo e Esquizofrenia. Além de ser muito associado a Félix Guattari (com quem escreveu suas obras mais conceituadas), ele é conhecido por sua relação com a literatura e o cinema e também por suas reflexões sobre desejo e seus significados. Para quem tiver a fim, na internet há vasto material de Deleuze, inclusive a transcrição integral em português do abecedário. Vou postar aqui, aos poucos, os vídeos da série de entrevistas. Abaixo seguem as partes 2 e 3 de A de Animal. A primeira parte está AQUI.





Escrito por @Cesar_Ribeiro às 11h25
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DAVID FIRTH - CROOKED ROT

Crooked Rot é uma animação em stop motion feita em 2008 pelo genial David Firth, criador do personagem Salad Fingers e de diversos outros. O vídeo tem como referências figuras que vão de David Lynch a Salvador Dali. Firth está no momento preparando seu primeiro longa de animação, chamado The Meadow Man. Promessa de coisa boa.



Escrito por @Cesar_Ribeiro às 21h33
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EINSTEIN ON THE BEACH, THE CHANGING FACE OF OPERA

Esse é o nome do documentário que registrou a fodástica parceria de Philip Glass e Bob Wilson para a produção da ópera Einstein on the Beach. Obrigatório para qualquer artista.







Escrito por @Cesar_Ribeiro às 14h12
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VAMOS POR PARTES - Cesar Ribeiro

Parte 1
É fato: hoje ele inflama a mulher. O asfalto nas mãos, a sirene nos joelhos e o diesel no olhar. A separação há três meses. Depois de inúmeros chororôs e negativas, teve um tipo de estalo mandando apagar a figura. Bobear, leva o amante da boneca junto. Traçou o esquema no balcão deste boteco, entre groselhas de maracujá e naftalinas antialérgicas. Comprou líquido e galão suficientes pra trezentos e oitenta caminhões circularem o mundo quinze vezes e estocou rancor em duplicatas. Agora tá tudo preparado. E ele já está nas ruelas, mordendo tijolos e destruindo pedregulhos de isopor.

Parte 2
Na trilha seca, esquartejou com toda a sua brutalidade masculina uma orquídea branca, que agora está estatelada no carpete, impedindo o tráfego na marginal do pinheiros, entre a daslu e jacarepaguá. Não teve medo algum ao discutir ferinamente com uma anjinha de porcelana, que chorou ao reconhecer que a vida era uma merda e partiu para o iraque em busca de retiro espiritual e haxixe. Meteu-se na jaula e espancou um crocodilo de borracha sem temor de ser confundido com a refeição municipal. Obrigou um poste público a cumprir seu dever de apagar as luzes na hora do assalto, afinal todo mundo merece seu trocado.

Sentindo que nesta noite tinha força para esmagar milhares de balas juquinha, caminhou superpoderoso pela metrópole rumo ao crime planejado. Viu
 um dirigível sobrevoar a cercania com estampa do engov como sugestão pra impedir o maremoto, ouviu o cochichador bradar que o professor pardal ganhou o aprendiz, sacou o coro das carpideiras chorar copiosamente porque faleceu o filho da avó da mãe da tia do bisneto do pai da madrasta do neto da vilã da novela que fala sobre o romance do rico xptomegamix com a pobretona eleonora zélia duncan, assistiu ao furioso embate do prédio do mcdonald’s com a quitanda do jacozinho, lamentou que uma igreja universal sobrevoou a praça entoando cânticos salomonísticos, deu uma mínima risada ao saber que os encarcerados do vigésimo primeiro construíram um túnel que deu direto no quadragésimo segundo, dançou ao som de um trio elétrico que explodiu na cidade aos berros de celine dion, escutou que os pavões coreanos registraram a paz na federação intergalática de comércio, leu no jornal algo do tipo “molusca aceita trepar com afegão na final do programa”.

Parte 4
Sentou no ladrilho escuro. Pensou na barbie, na tevê ligada no sábado de chuva, no passeio ao zoológico com a cria, nos uísques goelados nas madrugadas azuis, na máquina que lavava as calcinhas da adúltera. Pensou que hoje o comedor da esposa estaria sentado na poltrona com a sacana cafunezando a careca, depois ninando os arrotinhos, uma única cerveja e uma pilha de arrotos estocadas. Imaginou a velhice, quando a carcaça está cansada e tudo que se quer é uísque e uma sarjeta que sirva de amparo.

Parte 5
Mas não queria pagar felicidade com trampo escuso, construir família com desejo insano, ouvir pelada com carência alheia, respirar poluição com nariz duplicado, dirigir automóvel com caminho certeiro, chorar na sala com olhar atento, beber cachaça em boca dividida, dançar forró com parceria garantida, trepar gozinhos com vulva única, roncar pesadamente com silêncio próximo.

Várias Partes
Sentou no ladrilho claro. Olhou a gasosa. Desligou o nariz. Tomou numa leva só. Acendeu a nicotina. Explodiu. Chegou aos céus repartido, cabelo de um lado, crânio do outro. Os dedos vieram aos poucos, primeiro o polegar, depois o indicador e os restantes. Com o olho que não se espatifou, viu um velho hippie mexer no esqueleto dividido e juntar os pedaços. Refeito, sentou no algodão com as pernas novas. O velhinho pôs na roda uma erva esquisita. Os dois fumaram. O hippongo sacou purple haze ao violão, deu uma baforada longa e balbuciou: “camarada, eu não entendo por que criticam tanto meu trabalho”.



Escrito por @Cesar_Ribeiro às 13h31
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GORILAS, HUMANOS & OUTROS INSETOS - Cesar Ribeiro

Gorilas da última leva da criação primata, daqueles que tendo pouca sorte lamentavam não terem nascido na época dos homens pois preparados estavam para usar terno e gravatas, para largar a banana e aproveitar o caviar, para acumular capital em vez de árvores, para proferir discursos filosofais em vez de meros brados reprodutórios, Temprônio e Catundo lamentavam sua sorte, sabendo as mãos ainda distantes do revólver, impreparados estavam os dois para assuntos de assassinato. Com o tempo, quem sabe, poderiam desentortar os tortos polegares. Mas agora, agora fica pra depois.

Quem sabe quando, crendo na palavra dos homens, encarnassem em outra época, jamais inseto e jamais primata, somente homem. Óbvio estava que gorilas jamais pensavam na vida futura, num reino divino após a morte. E Temprônio e Catundo, gorilas semi-humanos, alimentando o princípio do pensamento, questionaram o absurdo da inaceitação de um céu gorilístico: gorilas não serão a imagem e semelhança de Deus? Não existirá um paraíso e uma vida pós-morte para míseros primatas?

Os pensamentos corriam cérebros macacais, questionando o sentido da existência, o porquê da vida nas florestas e sobre árvores, o porquê de não caminhar no chão e não dirigir automóveis e não viver sobre concreto e não viajar para a Flórida e não se encarcerar no Carandiru. Eram muitas impossibilidades para gorilas pensativos. Sabiam que a consciência do crime era o passo máximo na evolução humana. Mas eles, meros peludos, ainda que pensantes, sabiam que a consciência era algo especial, ainda intocável e inatingível para primatas. E sonhavam com a possibilidade da razão. Procuravam ler as notícias dos jornais, viam a política e a economia e a violência. E viam que os evoluídos organizavam-se politicamente e economicamente e culturalmente e moralmente. Não entendiam: moral mente, política mente.

O que era mentira? Eles eram apenas macacos, gorilas filosofais incapazes da palavra e, consequentemente, da comunicabilidade. Era o que pensavam: palavra igual a comunicação. Porém, ainda que perplexos, sabiam-se gorilas e não insetos. Jamais admitiriam, apesar de poderem bater asas e voar, serem esmagados pelo simples passo de um homem. Eles, gorilas de grande força, nunca seriam aniquilados dessa forma. Somente armadilhas e armas generalizadas poderiam abatê-los. Talvez leões. Mas os leões eram poucos. Quase todos estavam, diante da reclamação na selva sobre a selvageria leonina (olha só o paradoxo!), disfarçados de ovelhas, fingindo inexistir o mal que, segundo consta, lhes é inerente. Porém, sabiam-se não insetos, que não voavam mas pulavam os galhos, dançando sobre os ares, entre arranha-céus de madeira. E andavam nus. Essa diferença apenas importava diante dos homens, jamais dos insetos. Os insetos também caminhavam/voavam nus. Mas eles, gorilas da última leva da criação, quase homens, orgulhavam-se de não serem tão ínfimos.

Lamentavam não serem tão grandes e eternos como os homens, pois macacos não conhecem o paraíso. E, entre lamúrias diante do humano e vanglórias diante dos insetos, questionavam o que seria de suas almas macaquísticas. Mas lembravam a tempo, quando pensavam que insetos não tinham alma, que talvez macacos também não tivessem. Nunca viram um altar para deuses em reino de formigas. Cupins paradoxais não cultuavam imagens. Nunca conheceram abelhas ortodoxas ou besouros muçulmanos. E, fato engraçado, não se recordavam de nenhuma contenda envolvendo parasitas. Deve ser o atraso cultural! A evolução conduz à destruição. Esse era o pensamento macaquístico após análise meticulosa sobre o império insetístico e o mundo humanitário. E onde estariam as bandeiras da nação gorilística? Por que a floresta não era dividida em estados, cidades, bairros, ruas, prédios? Por que macacos não tinham CIC e RG? Por que macacos eram impossibilitados de pagar imposto?

Descontentes e revoltados, Temprônio e Catundo foram ao Governo Federal dos humanos exigindo a regulamentação dos papéis gorilísticos, pois, afinal de contas, gostariam de ser contabilizados nos sistemas federais, estaduais e municipais como cidadãos macaquísticos brasileiros. E, exagerando no pedido, reclamaram a ausência de passaportes para viajarem para as Bahamas. Lembrados a tempo pelo oficial de gabinete, ficaram chateados por nunca terem entrado numa escola e aprendido a escrever e ler. Se fossem cidadãos, seriam analfabetos. E na hora do voto? Por que nunca haviam pedido a opinião dos gorilas na hora de escolher o representante nacional? Queriam que macacos apolíticos existissem na nação por quais motivos?

Ficavam intrigados e descontentes, desconfiados e impotentes, mas sabiam que eram apenas macacos. E, por outro lado, jamais seriam insetos.

Contentando-se pela impossibilidade de, algum dia ou noite, em processos kafkianos, transformarem-se em insetos, deixaram de lamentar serem macacos e serem tratados pelos outros como tais. Viveram sobre galhos até o dia de suas mortes, em quedas de árvore. E, antes da morte, pensaram que tiveram uma vida feliz: o alívio de não ser inseto valorizava o fato de serem macacos.


Escrito por @Cesar_Ribeiro às 12h55
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HISTORY



Escrito por @Cesar_Ribeiro às 00h52
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O ABECEDÁRIO DE DELEUZE - A DE ANIMAL

O Abecedário de Deleuze é o nome pelo qual ficou conhecida a série de entrevistas concedidas pelo filósofo Gilles Deleuze a Claire Parnet entre 1988 e 1989, que foi produzida pelo documentarista Pierre-André Boutang. A série chega a quase oito horas de duração, em que Deleuze discorre sobre uma palavra-chave de cada letra do abecedário. Nascido na França em 1925 e falecido em 1995, Deleuze tem entre suas obras principais Nietzsche e a Filosofia, Mil Platôs e O Anti-Édipo - Capitalismo e Esquizofrenia. Além de ser muito associado a Félix Guattari (com quem escreveu suas obras mais conceituadas), ele é conhecido por sua relação com a literatura e o cinema e também por suas reflexões sobre desejo e seus significados. Para quem tiver a fim, na internet há vasto material de Deleuze, inclusive a transcrição integral em português do abecedário. Vou postar aqui, aos poucos, os vídeos da série de entrevistas. 



Escrito por @Cesar_Ribeiro às 22h35
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MÚSICA ERUDITA CONTEMPORÂNEA

Meus camaradas de manguaça, talvez você pense não conhecer John Williams,  não saiba o que é música erudita contemporânea e ache que ópera foi inventada por um sádico que quer fazer de seus tímpanos um ringue de elefantes caolhos duelistas. Pode ser. Mas se você é nascido e criado neste planeta com certeza já ouviu



Gotcha! O sujeiro fraquinho que compôs isso se chama John Williams, um psico que faz música erudita e trilhas para uns filmecos desconhecidos, como Tubarão, Indiana Jones, ET, Harry Potter e A Lista de Schindler. Ele é o lado, digamos, mais poptchura da música erudita da atualidade. Outro lado é mais denso, querendo com isso dizer de mais difícil assimilação para os ausentes de neurônio. Dois exemplos são



e



O primeiro é da parceria do músico Zbigniew Preisner (Kumékixamunómidissu?) com o cineasta Krzystof Kieslowski. O vídeo é de A Liberdade É Azul, mas eles fizeram essa parceria também nos outros filmes da trilogia das cores e em outros. Já o vídeo acima é do genial Vida Cigana, dirigido por Emir Kusturica, que também fez Underground. A música é de Goran Bregovic.

São todos muitos orgásticos. Mas o estilo musical que mais vem influenciando a cena contemporânea erudita é o minimalismo. Se você costuma frequentar cinema dipovumudernosokifaladifilosofiaeodeiabigbother, certamente conhece Philip Glass, Michael Nyman e Yann Tiersen. Glass compôs trilhas para filmes como As Horas, Kundum (no kundum de quem?) e Koyaanisqatsi, criou músicas para peças de Beckett e fez mais uma caralhada de outras coisas duca, como



Já Nyman teve durante longo tempo parceria com um de meus cineastas prediletos, Peter Greenaway. Essa dupla gerou obras como



Nyman também é muito conhecido pela trilha do filme O Piano. Já Yann Tiersen fez a trilha de O Fabuloso Destino de Amelie Poulain e  



Concordo, Amelie Poulain é ótimo. Mas Adeus Lenin é impressionantemente fueda. Um caso à parte são as óperas contemporâneas, em que Glass e Nyman também colocaram seu nome, ao lado de figuras como John Adams. Nyman fez coisas como



que é inspirado no livro O Homem que Confundiu sua Mulher com um Chapéu, do neurologista britânico Oliver Sacks. Já Adams criou óperas em que retrata temas como ameaça nuclear, terrorismo e afins. São dele





e



Porém, contudo, no entanto, todavia, apesar de todos eles serem fodões com 357 metros de caralho, Glass é uma referência para todas as artes. Na área de ópera, o psico só fez coisas como



e



Impressionante. Mas, se podemos acusar alguém de responsável por tudo isso, certamente o queima-jesus é



Só pagodeiro japa loiro, não?


Escrito por @Cesar_Ribeiro às 15h57
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THOMAS OSTERMEIER

Saiu na Folha de S.Paulo de hoje a matéria abaixo. Apenas copiei o texto e inseri vídeos da montagem de Hamlet.

A cena de Berlim


Um dos principais diretores atuais, Thomas Ostermeier , diretor artístico do teatro Schaubühne , defende novas linguagens cênicas e dramaturgia burguesa como crítica à ideologia europeia atual 

Arno Declair/Divulgação
 
O ator Lars Eidinger em cena da montagem de "Hamlet" dirigida por Thomas Ostermeier 

CHRISTIANE RIERA
CRÍTICA DA FOLHA, EM BERLIM 

Um dos maiores teatros de Berlim, o Schaubühne am Lehniner Platz fez história por seu forte viés político sob o comando do celebrado Peter Stein nas décadas de 1970 e 1980. 
Sua fama em produzir montagens marcantes ganhou mais vigor sob a liderança do atual diretor artístico, Thomas Ostermeier, 42, cuja trajetória reproduz o ritmo veloz e barulhento de suas montagens. 
Logo que terminou a escola de teatro, assumiu a direção artística do Baracke (Deutschen Theater) em 1996, transformando-o em uma das salas mais experimentais de Berlim, o que resultou no prêmio Teatro do Ano, em 1998, concedido pelos críticos da prestigiosa revista "Theater Heute". 
À frente do Schaubühne há mais de uma década, dirigiu montagens explosivas de clássicos como Henrik Ibsen (1828-1906) e Shakespeare (1564-1616) em circuitos como Nova York, Paris, Israel, Moscou e Tóquio. 
Assim, tornou-se rapidamente o diretor alemão mais conhecido dos últimos anos no cenário internacional. 
Responsável por estreias mundiais de autores como Jon Fosse, David Harrower, Lars Norén e Karst Woudstra, ele transformou seu teatro no maior centro de divulgação de dramaturgos contemporâneos da cena local. 
Na última sexta-feira, Ostermeier recebeu a Folha para uma entrevista em que discorreu sobre sua abordagem no teatro e os modos de produção em seu país. 

 



Folha - O teatro alemão contemporâneo é considerado vanguardista e pós-dramático. Sua preocupação com a narrativa vai contra essa tendência? 
Thomas Ostermeier - 
Quando Hans-Ties Lehmann definiu o pós-dramático nos anos 1990, considerou o teatro dos 1980. Naquela época, fazia sentido destruir tudo.
Não conseguimos mais desconstruir o que já foi desconstruído, pois não temos mais pontos de referência. Nossa tarefa hoje é reconstruir narrativas com novas linguagens cênicas sem sermos conservadores.

Como não ser conservador no Schaubühne, um teatro que, apesar de seu passado político, situa-se hoje em Charlottenburg, um dos bairros mais elitizados da cidade?
Somos hoje dominados pelo cinismo apesar de sabermos que o mundo anda errado. Passamos a focar a vida privada, ter uma família e criar filhos. Enquanto geração, não temos um projeto social. Eu me manifesto politicamente enfatizando para a nossa geração que ela pensa desta maneira.



E como se dá essa sua crítica à geração em termos artísticos?
Recorro a uma dramaturgia altamente burguesa para refletir nossa situação hoje. Em minhas montagens de Ibsen, quis ligar nosso presente histórico ao século 19 para mostrar ao público onde estivemos e para onde voltamos, mesmo atravessando utopias radicais.
A ideologia que prevalece em toda a Europa é deprimente: Estado, religião e família. É chocante ver como estamos reproduzindo valores de séculos atrás.

Qual o seu método para extrair frescor de narrativas clássicas?
Ainda podemos escavar um texto e chegar a resultados surpreendentes. Há coisas a serem descobertas no drama clássico que podem lançar novas abordagens ao que apenas achamos que sabemos.



O foco do Schaubühne em dramaturgia internacional tem ênfase em autores britânicos. Alguma razão?
Foram sempre essenciais para a Alemanha. Shakespeare influenciou Goethe [1749-1832], Schiller [1759-1805] e Buchner [1813-1837].
Nos anos 1950, foi a vez de John Osborne [1929-1994]. Depois, vieram Edward Bond e uma onda recente de dramaturgos inovadores como Mark Ravenhill e Martin Crimp. Trabalhamos também com Marius von Mayenburg e Roland Schimmelpfennig, os dois autores alemães mais produzidos aqui.

Como conseguem manter um repertório tão dinâmico, considerando o tamanho de suas produções?
A qualidade do nosso teatro tem muito a ver com o dinheiro de produção. Somos muito bem subsidiados se comparados a qualquer outro país do mundo.
O Schaubühne, como todos os teatros do país, é financiado pela prefeitura, que destina a teatros e óperas 1,2% de seu orçamento anual. Para eles, nada. Para nós, € 12 milhões [cerca de R$ 27 milhões] por ano.



Há razão para não existirem incentivos federais?
Não temos um Ministério da Cultura desde o final da Segunda Guerra, quando americanos e ingleses tentaram construir aqui um Estado democrático. Queriam evitar a formação de uma identidade nacional que pudesse avançar uma ideia de nação e resultar em fascismo.





Escrito por @Cesar_Ribeiro às 12h49
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NITRO MICROPHONE UNDERGROUND

Nitro Microphone Underground é um dos mais populares grupos do hip hop japonês, ao lado de Shakkazombie, Rhymester, King Giddra, DJ Watarai, Nato e outros. Vários integrantes do Nitro também fazem sucesso em carreira-solo, como Dabo (um dos pioneiros do hip hop japonês) e S-Word. Deem uma sacada neste som, que leva o mesmo nome do grupo.



Escrito por @Cesar_Ribeiro às 00h45
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FODOROVSKA - grupo Garagem 21

Este é o vídeo com os 15 minutos iniciais da última peça que dirigi e escrevi. Chama Fodorovska e foi encenada no Satyros no ano passado. A sinopse? Utilizando a linguagem de HQs e desenhos adultos e mesclando referências que vão de Foucault a South Park, esta comédia mostra a festa de comemoração dos 250 anos da Fábrica de Supositórios Brasil, em que a atração princiapl é uma peça na qual um homem passa seus últimos momentos de vida cercado por personagens como uma mulher que só dorme, um coelho escritor e a estrela pop do Quirguistão Sonja Fodorovska.



Escrito por @Cesar_Ribeiro às 15h20
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PRÉ-ESTREIA DIGRÁTIS DO FILME BIUTIFUL

Nesta quarta, dia 19, o Cine Livraria Cultura e a Folha de S. Paulo realizam a pré-estreia Catraca Livre de Biutiful, novo filme do diretor mexicano Alejandro González Iñárritu. O longa será exibido às 20h e as senhas podem ser retiradas na bilheteria do cinema a partir das 18h30.

Em “Biutiful”, Javier Bardem é Uxbal, um herói trágico, pai de dois filhos, que está sentindo a iminência da morte. Ele luta contra uma realidade distorcida e um destino que trabalha contra ele, o impedindo de perdoar e amar, para sempre.

Confira o trailer

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FONTE: CATRACA LIVRE



Escrito por @Cesar_Ribeiro às 11h21
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NÃO TENTE APAGAR O SEU PASSADO NA INTERNET - João Pedro Pereira

Se nunca esteve no Twitter ou no Facebook, nunca publicou um blogue ou um site pessoal, não participou em fóruns de discussão (e, claro, se não for uma figura pública), a sua pegada online deve ser pequena. Mas existe. Não se esqueça de tudo o que os outros podem publicar e sobre o qual não tem qualquer controlo - desde documentos oficiais que são frequentemente colocados online, como é o caso das listas de notas das universidades ou resultados de concursos públicos de emprego, até textos em blogues que por alguma razão falam de si. 

No meu caso, o exercício de tentar apagar os vestígios da actividade online pareceu-me desde logo tarefa impossível: o rasto é grande. Há as contas em redes sociais, dois blogues antigos, um site pessoal e ainda contas de utilizador em dezenas de sites diferentes (companhias aéreas, lojas online, serviços vários que experimentei uma vez e aos quais não voltei). E há também vários artigos escritos para este jornal e que estão espalhados pela Internet (tanto no site do PÚBLICO, como em alguns casos replicados noutras páginas). Uma parte desta informação é pública e surge com uma pesquisa simples no Google. Outra está (presumivelmente) bem guardada atrás dos muros informáticos das empresas a quem a confiei. 

Sejamos claros: não tenho qualquer vontade de apagar nada do que tenha publicado na Internet (e também não há nada que outros tenham publicado e que eu, mesmo que pudesse, queira ver apagado). O exercício não consistia em eliminar o meu passado, mas em saber quão difícil seria fazê-lo e parar ainda antes do clique final. Tropecei logo na primeira tentativa. 

Um site inapagável 

Algures no final da década de 1990, criei o meu primeiro site. Era um espaço dedicado a um passatempo algo obscuro: um jogo de cartas coleccionáveis chamado Magic: the Gathering, em que cada jogador usa feitiços para "matar" o oponente. Com excepção de uma fotografia tipo passe da minha adolescência e de textos de qualidade duvidosa sobre as estratégias de jogo (e de ser óbvio para qualquer visitante que dediquei muitas horas a cartas com ilustrações de figurinhas mágicas), não há lá nada de verdadeiramente embaraçoso. Mas, se houvesse, ficaria na Internet, por muito que me esforçasse para o remover.

O site foi alojado num serviço chamado Tripod, um dos muitos que existiam durante a fase de crescimento da bolha dot-com e que ofereciam espaço para os utilizadores criarem os seus sites. Eram uma espécie de precursores de serviços de blogues, como o Blogger. Ora, não apenas não tenho a mais pequena ideia de qual o meu nome de utilizador e respectiva palavra-passe no Tripod (ainda fiz umas tentativas de adivinhação), como o email que então usei para criar a conta foi há muito abandonado. Não tenho qualquer forma de recuperar os dados de acesso ou sequer de contactar a empresa e provar que sou o criador do site. Desisti. 

Pelo contrário, apagar os sites e blogues mais recentes é uma tarefa simples. Mas, se o fizesse, eles não desapareceriam completamente. Exemplo: há uns meses, eliminei por engano um blogue que escrevi durante três anos (bastaram dois ou três cliques desastrados). Quem for ao endereço depara-se agora com uma página de erro. Mas vestígios deste blogue ainda surgem no Google. E referências aos textos que escrevi estão espalhadas por outros blogues. Faz parte do funcionamento da Internet: pode-se apagar o conteúdo original, mas este está inevitavelmente replicado e espalhado pela rede. 

O Big Brother Google 

Um dos gigantes online que agregam uma impressionante quantidade de informação é o Google. Uma porção muito grande da minha vida online está nos servidores desta empresa. Frequentemente (sobretudo antes da explosão do Facebook, que se tornou o novo alvo), a multinacional americana era por isto comparada ao Big Brother e repetia-se até à exaustão que estava a abandonar o seu conhecido mote de não ser má.

Há, no entanto, uma forma mais positiva de olhar para a imensa quantidade de informação que o Google recolhe. Quanto mais este souber sobre mim, melhores são os resultados das pesquisas que me apresenta e mais eficazes se tornam os muitos serviços que uso: o YouTube, os Google Docs (onde este artigo foi escrito), a agenda (onde alguns dos meus colegas até podem ver o calendário dos meus compromissos profissionais), o Gmail, o Reader (para ler artigos e notícias), os mapas (que já sabem a cidade onde moro e que consulto quase todos os dias em busca de sítios onde tenho de ir) - a lista podia continuar (aliás, os carros do Google até já me fotografaram à saída do trabalho, em Lisboa, e a foto está publicada no serviço Street View, que mostra imagens detalhadas das ruas; o meu rosto está propositadamente desfocado, como é exigido por lei, mas o da pessoa que está comigo escapou ao sistema e é perfeitamente visível). Ora, a pensar em quem está preocupado com a privacidade (e pressionado pelos reguladores para tornar tudo isto mais transparente), o Google criou uma página, (http://google.com/dashboard) que mostra a informação sobre o utilizador contida nos diversos serviços. Foi aqui, por exemplo, que descobri que, por um motivo que me escapa, menti ao registar-me no YouTube e, tanto quanto o Google sabe, tenho quase o dobro da minha idade real. Se tudo o que vir nesta página do Google o assustar, encerrar a conta é um processo simples: em https://www.google.com/accounts/DeleteAccount basta escolher os serviços de que queremos ser eliminados, introduzir a palavra-passe e premir um botão. 

É claro que ter informação no Google não é o mesmo que ter um blogue. A esmagadora maioria destes dados não são públicos e a empresa tem imensos informáticos a trabalhar para que os dados que lhe confio permaneçam em segurança (mas já houve um ou outro caso de contas do Google que foram atacadas e das quais piratas conseguiram extrair alguma informação). O problema, frequentemente, não é que os dados saltem os muros digitais das empresas - mas o que estas fazem com eles. 

Nova legislação 

Tal como os serviços do Google, as redes sociais são conhecidas por armazenarem uma gigantesca quantidade de informação pessoal. Alguma nem sequer é lá colocada de forma voluntária. Quem usa o Facebook sabe, por exemplo, que qualquer utilizador pode publicar uma foto em que outra pessoa apareça e essa foto pode ser associada ao perfil do fotografado (embora esta associação possa ser facilmente removida pelo visado).

Para estas redes, e para o Google, os dados pessoais fazem parte do modelo de negócio. Gostos, idade, localização geográfica são elementos úteis para quem quer fazer publicidade direccionada. Uma das questões que está a preocupar as autoridades, nomeadamente a Comissão Europeia, é o facto de não ser muito transparente o que estes sites fazem com os dados recolhidos. 

Terminou no sábado uma consulta pública feita pela Comissão Europeia sobre a questão do armazenamento e tratamento de dados pessoais. A ideia é rever a directiva comunitária sobre o assunto. Embora a revisão legislativa não se resuma à Internet, parte do desafio passa precisamente por lidar com os dados que circulam na rede de computadores, diz ao PÚBLICO Clara Guerra, da Comissão Nacional de Protecção de Dados. "A directiva é de 1995 e é omissa em relação à Internet. A legislação deve ser neutra do ponto de vista tecnológico, mas a Internet trouxe uma nova realidade. E ainda estamos na fase da filosofia sobre o que deve ser feito." 

Uma das questões que a Comissão Europeia está a ponderar é clarificar o chamado "direito a ser esquecido", que se aplica tanto à Internet, como ao mundo offline. Lê-se na proposta da Comissão que este é o "direito de as pessoas impedirem a continuação do tratamento dos respectivos dados e de os mesmos serem apagados, quando deixarem de ser necessários para fins legítimos". É isto que determina que, por exemplo, a seguir aos passos para apagar a conta do Google, os dados devem mesmo ser eliminados dos servidores. Outro dos pontos que a Comissão quer abordar parece ter sido escrito a pensar em redes sociais como o Facebook: trata-se de garantir a portabilidade dos dados, ou seja, "prever de forma explícita o direito de retirar os respectivos dados (por exemplo, fotografias ou uma lista de amigos) de uma aplicação ou serviço e transferi-los para outro".

Alguns sites já permitem importar alguma informação do Facebook (e o Facebook importa informação de outros sites). E também há nesta rede social uma funcionalidade para que qualquer utilizador possa criar um arquivo de toda a sua informação: nas definições da conta (que surgem no menu do canto superior direito), uma opção permite descarregar uma pasta com páginas Web que listam os amigos, as fotografias publicadas, as mensagens trocadas, e tudo o que foi publicado no mural do utilizador. Estas páginas ficam guardadas no computador e podem ser vistas no browser, mesmo quando não se está ligado à Internet. 

Pressão emocional

Apagar um perfil no Facebook é uma tarefa mais complexa do que guardá-lo. A opção disponível na área de gestão é apenas para suspender a conta. E, se o tentar fazer, o site tem uma estratégia de pressão emocional: exibe fotos suas com amigos, faz questão de dizer que essas pessoas vão sentir a sua falta e ainda apela a que lhes envie uma última mensagem. 

Optar pela mera suspensão da conta significa que pode reactivar o seu perfil quando quiser - basta voltar a entrar no site. Até lá, os comentários que fez nos perfis de outras pessoas continuarão publicados, embora o seu nome passe a estar a preto (em vez do azul que é a imagem de marca do site) e deixe de ser um link para o perfil, que se torna inacessível. 

Há, porém, uma outra opção: apagar mesmo a conta. Para isso, tem de seguir as instruções numa página que o Facebook faz questão de não ser fácil de encontrar. Está aqui: https://www.facebook.com/help/contact.php show_form=delete_account. Neste caso, tem duas semanas para se arrepender. Nesse período, se voltar a usar o Facebook de alguma forma (o que inclui aplicações para telemóveis ou fazer "gosto" em qualquer página na Web), a sua conta é reactivada.

Mas nem todos os sites têm sistemas tão complexos. O Twitter oferece uma forma simples de apagar a conta e deixa logo o aviso: uma vez apagada, não há lugar para arrependimentos, nem forma de voltar atrás. No lado oposto está a Wikipedia. Se já lá criou uma conta, fique a saber: é impossível eliminá-la. Já em sites comerciais, as estratégias variam.

Na Amazon é preciso usar um formulário para enviar uma mensagem à empresa a pedir o cancelamento da conta. E o Audible, um site de venda de livros em formato áudio em que estive inscrito, oferece 20 dólares em livros a quem clicar no link para encerrar a conta. Foi tentador, mas não cedi - se aceitasse a oferta e mais tarde quisesse mesmo encerrar a conta tinha de me dar ao trabalho de lhes enviar uma carta. Optei por concluir o processo. Mas a empresa fez questão de não me esquecer e ainda hoje recebo emails promocionais.

FONTE: PÚBLICO



Escrito por @Cesar_Ribeiro às 11h06
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A PINTURA DE HU MING

Hu Ming é uma pintora chinesa que mistura os estilos clássico e moderno. Sua obra basicamente retrata mulheres do exército chinês em situações sensuais. Essa referência ao exército deve-se a seus pais terem sido médicos que serviram ao exército e a ela ter sido soldado. Nas obras se destaca a mescla de referências modernas e tradicionais, ou basicamente a ruptura do comportamento em ambientes que, em essência, são conservadores, como a bola de chiclete em uma marcha militar. O estilo também remete muito aos quadrinhos. 

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FONTE: HU MING



Escrito por @Cesar_Ribeiro às 04h21
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MY FRENCH FILM FESTIVAL

Desde o dia 14 está rolando na internet o My French Film Festival, um festival que tem como objetivo difundir a jovem produção francesa na área. Ao todo são 23 filmes, entre longas e curtas. Todos eles estão em competição, exceto três, sendo estes filmes de Jean Renoir, Mona Achache e Riad Sattouf. A mostra vai até o dia 29 de janeiro, tem legendas em português e não custa um puto: basta acessar o site e preencher um cadastro. 



Escrito por @Cesar_Ribeiro às 19h53
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ANÁLISE SEXUAL DE BELTRANO & JUREMA ou REFLEXÕES SOBRE AS BUNDAS DA TERRA-PÁTRIA- Cesar Ribeiro

Sabadão pós-churrasco, em um dia qualquer de uma época qualquer, Beltrano, devorador de belzebus e demais demos, estava perplexo diante da sua companheira eletrônica ao assistir ao incessante desfile de silicone e demais criaturas clonadas de uma perfeição rarefeita.

Analisando as propriedades dialéticas da conjuntura bundística de loiras, morenas e demais zubinzarretas, pôde enfim perceber a sensação de solipsismo ao sentir, entre cachaças e outras antas alcoólicas, a Jurema, mulher sua de décadas atrás, acariciar os cabelos pretos de sua semicareca enquanto o desfile bundístico prosseguia, canal após canal, aprisionando seus jatos masculinos ao sofá e trazendo-lhe a impotência latente.

A bunda loira tinha um quê de pensante, daquela que se faz estúpida para entre arranhões e demais cicatrizes arrebatar o gozo em análises freudianas, recordando as nádegas maternas ou paternas ou de algum outro tipo de cachorro equivalente; já a bunda morena, tradicional e constante, era do tipo desespecial, conhecida, que refletia no homem a segurança de anos de conhecimento das bundas da terra-pátria; a bunda negra, cor idêntica à sua e à de sua Jurema, trazia pensamentos futurísticos e a lembrança de alguns passados próximos, quando ainda encontrava satisfação na traseira patroística e esperava, mesmo em meio aos mecanismos anais, que algum arrotinho nascesse e lhes trouxesse nessa filiação um novo enlace; mas a ruiva... a bunda ruiva era um mistério.

Já havia deflorado bundas argentinas, negras, judaicas, masculinas, nonagenárias, muçulmanas, sudanesas e outros pagodes. Mas, ruiva? Entre suas comilanças analzísticas não contara nenhuma ruivice. E agora, frente à amiga eletrônica, babá de plantão nas horas de desespero e impotência, desfilava frente a seus olhos e membros e ombros e mãos a ruivice espantosa da nádega fogosa. Como poderia, entre as dobras do corpo, os cabelos raros, a face maltratada de cavalo do salário mínimo, possuir alguma anca do naipe daquela ruiva que, entre olhares de milhões de telemasturbadores, remexia suas qualidades consolidadas?

Em empíricas análises filosofais, lembrara-se que entre sombras e nuvens de uma tempestade noturna qualquer pensara na qualidade das nádegas humanas que, em meio às sociologias, antropologias, psicologias e outras demagogias divinizatórias, construíram do caráter bundístico um elemento reconhecidamente qualitativo para a filosofia nacional. Pensara na época que seria apenas o padrão da nação: a bunda determinava a face do cidadão. Perguntou-se se tinha cara de cu, se todos realmente achavam que o sentimento de potência sexual traria o sentimento de potência humana.

Foi quando, para seu espanto, reconheceu que o sexo com Jurema, que havia inexplicavelmente multiplicado de qualidade e quantidade, fazia-lhe homem. E reconhecendo-se homem sua estima de humano ganhava os céus. Era homem. Seu mastro ostentava-se ao vento. A patroa Jurema gostava das noites. Ele trabalhava. Recebia o mínimo do mês. Comia farelo de pão e bebia cervejinha no fim de semana. Passeava no Ibirapuera. Assistia aos programas, recebia bronca do patrão, carimbava as fichas maquinalmente, pegava ônibus lotado com cheiro de suor gentístico, acordava cedo. Mas toda noite lançava o leite no ventre na patroa quente. Mas hoje. Hoje ficou para ontem. A potência desistia dele. Aquelas ancas desfilantes eram desconhecidas, despossuídas por ele, e nunca poderia, em meio aos seus disformes dentes e 45 anos de bode excluído, padecer no paraíso anal das ninfas de auditório. Aquilo empalidecera o suor noturno com Jurema, as noites eram sem graça e gozo, nenhum gemido se ouvia há meses, e Jurema chorava sozinha quando, cansado do trabalho, o analisador bundístico roncava antes que pudesse se elevar qualquer toque feminino.

Mas agora, com a cerveja na barriga, quem sabe o maridão poderia dar conta do recado e enviar o jorro pastoso ao bucho desejoso. Então Jurema, negra fogosa desfogada pelo marido broxante, acariciava a careca dele, esperando a ereção mostrar-se em meio à calça apertada. Beltrano apenas olhava a ruiva mobilizar suas nádegas para as variáveis do espaço. Impressionante as possibilidades de movimentação para a venda do patrimônio bundístico. Sua renda era a traseira, o sustento de seu aluguel e de suas viagens à Europa. Beltrano olhava a ruivice ganhar o pão de cada dia, enquanto Jurema, querendo ganhar o pau de cada noite, tentava invisíveis carinhos.

Foi quando, esquecendo-se do mundo das coisas e das coisas do mundo, esquecendo-se da esposa e do restante de seu corpo, Beltrano conduziu a mão direita ao pênis e, sem olhar ao redor nem se dar conta da mão feminina sobre a cabeça, masturbou a cabeça mais importante do momento com movimentos desesperados. Jurema, antes espantada e depois semi-excitada, buscou então, como possibilidade única de sua boca, recolher algumas gotas de esperma destinadas à ruivice eletrônica. E sorriu, feliz pelo retorno da sexualidade matrimonial.


Escrito por @Cesar_Ribeiro às 15h44
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SONS DE PERNAMBUCO - MESTRE SALU, CHICO SCIENCE, MESTRE AMBRÓSIO E CORDEL DO FOGO ENCANTADO








Escrito por @Cesar_Ribeiro às 13h13
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YOSHIDA BROTHERS - Rising

Yoshida Brothers é uma dupla japonesa de música instrumental. Os caras tocam o tradicional instrumento shamisen. Em algumas músicas, juntam esse instrumento com recursos eletrônicos e/ou instrumentos de percussão, como no vídeo abaixo.  



Escrito por @Cesar_Ribeiro às 23h41
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MUTO - o grafite animado de BLU

BLU é um argentino que mistura em suas obras o grafite e a técnica de stop motion. O resultado é algo como um "grafite animado" muito bacana. Basicamente ele realiza intervenções em espaços urbanos, grafitando paredes e algumas outras áreas, além de usar alguns objetos, para contar suas histórias. Deem uma sacada no vídeo que vocês entenderão do que estou falando. 



Escrito por @Cesar_Ribeiro às 15h27
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NELSON PEREIRA DOS SANTOS - O Amuleto de Ogum

Nelson Pereira dos Santos é gênio. Reconhecido como um dos precursores do cinema novo, dirigiu obras como Rio 40 Graus, Vidas Secas, A Terceira Margem do Rio e o fodástico Memórias do Cárcere, interpretado por Carlos Vereza e que é uma adaptação do livro homônimo no qual Graciliano Ramos narra o período em que esteve preso pela polícia do Estado Novo. Mas o meu filme preferido é O Amuleto de Ogum. Começa com um violeiro cego sendo assediado por bandidos que, depois de o roubarem, pedem para ele contar uma história. O ceguinho então fala sobre um moleque que teve o pai e o irmão assassinados. Por insistência da mãe, que teme que o moleque também seja morto, ele vai a um terreiro e fica com o "corpo fechado". Mais velho, acaba se envolvendo com o crime e é jurado de morte por um traficante. Para melhorar, o papel do ceguinho é interpretado pelo músico Jards Macalé, que também compôs a trilha e abre essa ação secundária com uma das melhores frases do longa: "Vou contar uma história que aconteceu de verdade que eu inventei agorinha".



Escrito por @Cesar_Ribeiro às 02h51
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METENDO A LÍNGUA NA POLTERGEIST - Cesar Ribeiro

 

Não era uma Rosemary nem tinha um quê de Carrie, mas era alheia ao mundo e quando desfilava em praça pública atraía uma atenção típica de zumbi norte-americano diante de carne fresca. Continuava a caminhada sem se importar com a saliva que escorria da boca da marmanjada e de algumas fêmeas mais dispostas a encarar o batente. Na madrugada em que isso aconteceu eu tava sentado em um boteco na esquina da Augusta pensando nos vatapás todos que tinha de fazer no dia seguinte e no crime que me haviam encomendado na véspera. Tinha de apagar o Ivans Lins. Porra, tudo bem, assim como cento e uma em cada cem pessoas detestavam o figura, eu também não guardava muita simpatia pelo fulano, mas apagar nego público, sei lá, tem suas pentelhações. A mídia correndo atrás de quem furou a carcaça, a cambada chorando na fila no defuntamento e os gambés jurando por todos os divinos que encontrariam o carniceiro. Eu tava sentado dialogando com a cachaça e o cigarro. Ela entrou e todo mundo se zumbizou. Como o boteco tava vazio, só com meia dúzia de bebuns, não entendi muito bem porque ela resolveu puxar a cadeira e sentar ao meu lado. Tava de saco cheio de neguinho chegando pra pedir trocado pra comprar remédio pra mãe que tava morrendo de uma doença qualquer, vender incenso ou livro de poesia e tentar descolar uma graninha numa trepada num hotel vizinho. Tava a fim só de ficar com meus botões matutando como apagar a celebridade e tinha decidido que não pegaria nenhuma puta naquela madruga. Mas ela sentou e começou a puxar papo. Fiz uma cara de cão sarnento mas ela nem se incomodou e continuou arrotando palavrórios. Disse que eu era o único que não babava quando cruzava com ela na vizinhança, que queria saber por que eu não soltava a saliva e se eu era um viado que não tava nem aí pra alcachofra. Pensei em dizer que não era nada disso, mas resolvi apenas dar um tapa na fuça da fulana. Ela gostou. Ficou roçando meu pau por baixo da mesa até literalmente encher meu saco. Começou com um papo de que era cinéfila, que frequentava sempre o Espaço Unibanco e que foi a primeira a entrar na fila pra ver Jogos Mortais 139. Sacou uma sacola e mostrou uma leva de Romero, Jasons, Freddys, Profecias e adjacências. Disse que adorava se fantasiar de Tangina (a clarividente nanica de Poltergeist) quando trepava e perguntou se não toparia fazê-la naquela madruga. Mas tinha de ser fantasiado de Carol Anne. Caralho, entre ir pra casa e ficar bebendo uísque sozinho ou colocar a peruca loira e meter na voduzinha da ocasião, desejada no bairro todo e cercanias, resolvi deixar as notas sobre a mesa e partilhar a carne, já que a noite não tinha muitas promessas e eu não chegava a um consenso sobre como apagar o idiota. Descemos a Augusta e logo chegamos ao apartamento. Uma caralhada de pôsteres de filmes de terror espalhados pra tudo quanto é canto, alguns bonecos de vodu, diversas máscaras de vilões hollywoodianos e um colchão d’água, afinal ela precisava de um mínimo de conforto. Resmungou um pouco quando eu perguntei qualquer coisa sobre o que aquela porra de colchão tava fazendo lá. Passou a fantasia da arrotinha e foi pro banheiro se fantasiar de Tangina. Voltou andando sobre os joelhos enquanto eu ajeitava a bosta de peruca e colocava um tosco vestido infantil. Ela não se aguentou e veio correndo, ou rastejando aceleradamente, dizendo que eu era uma criança malvada e que era por minha culpa que todos os monstrengóides tavam azucrinando a casa. Era um tal de copo voar até a sala, papéis que escreviam livros de autoajuda durante a noite e cachaça que esvaziava sem ninguém beber. Falou que aguentaria tudo numa boa se não fosse por um grupo de fantasmas que de uns três dias pra cá resolveram ensaiar pagode dia e noite na sala do apê. Aí ela já não conseguia aguentar. Gritou que eu era uma menina má e que precisava me exorcizar porque tava de cuca quente por causa de toda a fantasmada que sentou no sofá e mudou de canal quando ela tava num domingo à tarde querendo ver Psicose. Então arrancou a bosta do meu vestidinho infantil e me jogou no seu aquário. Tirou a roupa e rosnou alguma coisa do tipo "Carol Anne, mete a língua na Poltergeist, mete a língua na Poltergeist". Como uma menina obediente, meti fundo a língua, cada vez mais fundo, enquanto da sala vinha um som: "Ela me balança/Feito uma criança/Faz o coração disparar, ê/Ela fica louca, com água na boca/Quando chega perto de mim/A gente nem se encostou e nosso fogo tá assim! (vai!!)”. Fui.


Escrito por @Cesar_Ribeiro às 13h29
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