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Sessenta Minutos para o Fim - crítica de Kil Abreu

Meus camaradas de manguaça, segue crítica de Kil Abreu para a peça Sessenta Minutos para o Fim, durante apresentação no Festivale, em São José dos Campos.

De Beckett a Seinfeld

Crítica – Sessenta minutos para o fim (Grupo Garagem 21, São Paulo) – Kil Abreu

O caminho que vai de Beckett a Arrabal (e, talvez acidentalmente também inclua Jean Genet e seus jogos em torno da representação de papéis) é parte da paisagem para a qual olha o grupo Garagem 21. Ainda que apenas uma ou outra coisa das peças destes autores esteja literalmente no espetáculo, são presenças muito firmes. Deve-se certamente a estas fontes a situação fundamental que articula a montagem, que remete a Fim de jogo e a O arquiteto e o Imperador da Assíria.

Penso especialmente em Beckett, não só pelas circunstâncias, de fato presentes também em Arrabal, mas por conta do campo de sentidos que vai se construindo no espetáculo. E, ainda, em função da luta dos dois personagens para que ambos não se deixem render ao puro niilismo, observados por uma figura de fábula, um coelho – como que o guardião de um tipo de narrativa já perdida, que já escorreu dali.

Diante da situação limite – limite a ponto de seus contornos aparecerem borrados e se avizinharem do nada -, a guerra íntima pela sobrevivência já não se dá na forma do enfrentamento cartesiano. Só pode se dar no campo da pura linguagem, crivada de buracos, cheia de fissuras. Agonismo sustentado por um tênue fio de fábula que ainda persiste e ameaça cindir-se. Aos personagens só resta inventar estratégias de permanência neste território incerto. Modos para que se mantenham de pé e que visitam um ou outro lance do comportamento: sexual, político, ético. Com o agravante de que no caso estes lances carecem propositalmente de continuidade uns em relação aos outros, ainda que apareçam simulados como recorrências. É que a recorrência de fatos e situações não tem aqui caráter explicativo, não redime nada nem ninguém. Aquilo que se torna a repetir não é indício de solução da crise posta. Ao contrário, é indício do seu aprofundamento.

A encenação de Cesar Ribeiro leva estes fundamentos das dramaturgias que inspiram o grupo aos territórios da cultura de massa, com referências ao cinema, a séries de TV e aos quadrinhos. Sem demérito a estas tentativas de diálogo anunciadas pelo diretor, o que sobrevive fundamentalmente na montagem é o fundo sentimento de derrisão, nascido do cruzamento entre aquelas situações e estas outras fontes. Permanecem os contornos do absurdo existencialista, só que agora retocados com as tintas de uma ironia muito evidente. E a serviço de uma dinâmica cênica bem demarcada tanto no desenho quanto no ritmo. Como obra aberta pode perfeitamente dispensar a leitura que o próprio grupo faz e oferecer outros chamados ao olhar do espectador.

De um modo ou de outro é um espetáculo que intui uma forma muito interessante de conceber a cena e procura traduzi-la se pautando pelo rigor. Um chamado convidativo para o próximo espetáculo que está a caminho.

Fonte:  SITE DO FESTIVALE


Escrito por @Cesar_Ribeiro às 16h21
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